Carta para Valter Hugo Mãe

Carta para o Valter Hugo Mãe,

enviada numa garrafa

pelas águas expressas do rio Jacuí,

que na garupa da lagoa dos Patos

há de embarcar no oceano Atlântico. 


Valter Hugo, 

mãe dos nossos alentos,

sou um gurizinho aqui do Sul,

sem norte ou estrela-guia.

Li a carta que escreveste

para Marcelino Freire.

Intrometido que sou,

me senti destinatário 

e remetente de tal escrito.

Também gosto de modelar

os brinquedos da vida

com os barros do Manoel.

Tomo banho de proparoxítonas 

no Velho Chico, Geni que é 

nestes tempos de luminárias quebradas.

Do mesmo modo que Marcelino,

nasci no ano de 1967,

tendo habitado já dois quartos

do casarão que seria viver

por um século. 

Sou machadiano do cabo 

à lâmina e, dentre tantas flores

bonitas do Guimarães Rosa,

tenho verdadeira faceirice

em ver pastar, pensativo e forte,

o pequeno-grande burrinho pedrês.

A cada ano fico mais criança,

maduro em subir nas árvores,

ignorante na gravidade

de ser puxado pelo chão,

num tombo que exigiria

mertiolate e cuidados maternos.

Já carreguei tanta água 

nos bolsos, numa esperança 

de encharcar desertos,

que fui apelidado de bilha rachada. 

Não desanimei.

Inventei-me bica

e depois cacimba de camelo,

para embeber distâncias 

com a chuva dos meus olhos.

Ontem mesmo, feliz coincidência,

eu disse que há muitos caminhos em nós,

 sementes engravidando a terra. 

E que o piquenique da vida

pode ser servido na varanda da primavera.

 Assim será, Valter Hugo,

mãe adotiva das nossas esperanças, 

faremos futuro na nossa fábrica artesanal

de produzir horizontes.



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