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Mostrando postagens de março, 2025

Um recado de luz

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  Amanhece a adolescência em Arambaré. Bernardo e Isabela bebem a imensidão  deste pedaço apaixonante de mundo. O futuro está dormindo calmamente, despreocupado e esperançoso.  O silêncio acaricia a alegria explícita.

Namorada

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Dormi abraçado à certeza  que te quero em doses diárias.  Acordei apalpando tua ausência  de veludo e luz própria. Em breve terei tua presença  que goteja leveza  na grandeza do mundo  que criamos a quatro mãos. 

Chuva de sol

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Amar é levar a sensibilidade  para passear sem destino certo,  é uma colheita que floresce,  é quando o sol chove na horta da gente

Minhas duas irmãs

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  Bia e Rosângela cresceram geminadas  num pequeno quarto lá de casa.  Fazem-se de telhado familiar,  alcançando proteção quando  a estação não primaveriza algum de nós.

Aurora

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Chamava-se Aurora e era tímida. Abria as venezianas do dia como quem  dá pão para um filho pequeno:  a mão feito um coração  que não cabe no peito.  Salpicava de luz suave a penumbra,  orvalhando o pátio  dos primeiros minutos  da sinfonia do silêncio.  Desenrolava o novelo do tempo  no colo da esperança acordada,  nos moldes da namorada que  reparte sonhos com a pessoa amada. Nas tranças do desejo um carinho  de paixão correspondida.

Namorada

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Tateio a tua ausência  com a mesma mão  que em outro poema  tomou a forma do teu seio.  Minha boca tem memória  da tua pele arrepiada, minha alegria conhece  a geografia de te querer.

Poema

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É pela janela do poema  que eu despetalo uma penca de estrelas cadentes. 

Lá em Cachoeira do Sul

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               (fotografia: Luiz Antônio Zinn)                Revisitei a Casa Rosa com todos os meus instrumentos de sentir aguçados.  Escutei a primavera, vi o aroma da infância, degustei a superfície suave da reminiscência. Respirei os olhos cor de verão da Ieda Prass, guardiã da minha primeira esquina.  Cumpri a sentença irrevogável  do meu pertencimento cromossômico  ao bairro Santo Antônio em Cachoeira do Sul: sempre que volto lá tenho os bolsos da alma,  da esperança, do passeio e do riso,  repletos da vizinhança que tanto amo.

Amanhã

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                (fotografia: Jussara Smaniotto) Não tenho interesse na tua profissão, no teu estado civil e nem nas tuas posses.  Quero saber do sol que te anima, do que te faz chorar e rir. Fala das tuas cambalhotas, das árvores que te dão sombra. Conta o quanto te faz ninho, dos teus dedos entrelaçados com os dedos alheios. Diz que não vais desistir, que tens dado atenção  a cada ser humano que cruza o teu caminho. Podes mencionar teus medos, verás que também tenho medos. Traz teu riso possível, traz semente, água, um punhado de terra, o que puderes trazer. Nos juntemos pra plantar o amanhã.

Fertilidade

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  A lagoa derrama fertilidade  no quintal da estrada. Um verso, repleto de viço, mostra sua semente de luz.

Porta entreaberta

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                      (fotografia: Jane Balen) O beijo iniciava ao observar o caminhar dela, seus trejeitos, sustos, suspiros, quando tocava no seu ombro. Era um beijo que já havia sido falado,  doce, delicado, lua e flor. Olhar no olhar, porta entreaberta.  Rufar de tambores no peito, pernas, tato, olfato, na imaginação, no afeto. Posse que não aconteceria, por tratar-se de entrega mútua.

Fogo aceso

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  Teu bronzeado, que vejo por inteiro  no fogo aceso do quarto,  é um presente que traz a praia  ao recato despudorado  da nossa intimidade.  Meus olhos bebem o sol  estacionado na tua pele,  enquanto minhas mãos e boca  passeiam na pequena geografia  que não foi exposta ao verão.  Teu bronzeado é perigoso,  abismo a ser visitado diariamente.

Amanhecido por ti

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Primeiro foi a tua timidez que abriu  a janela da minha atenção.  Um pouco depois reparei  na ternura dos teus silêncios.  Mais adiante teu riso inundou minha ilha. Depois disso fiquei enluarado com o teu sol,  amanhecido por ti a qualquer hora.

O bordado da minha mãe

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Quando anoitecia e a bola já cansada ia dormir embaixo da mesa ou da cama, minha mãe encerrava o tricotar do dia e se punha a bordar com estrelas cadentes.

Andando por um pedaço do mundo

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Trabalhou no ajuste da máquina  de ouvir gorjeios e passarinhar os olhos. Respirava o verde e as curvas do caminho.  Um vento de sudeste,  com intensidade de fraca à moderada,  o empurrou na direção de noroeste.  O rebanho de moirões estacionado ao longo da estrada observava em silêncio  a passagem do nômade.  Era uma estrada desusada  por quem tinha pressa.  Longe, na infância de observar  os quadrúpedes dizendo muito  sem falar nada, o viajante descobriu  que não existem distâncias,  mas jeitos de caminhar.

Queli e Robinho

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            30 anos de casamento (25/03/2025) Há três maravilhosas décadas,  no meu respirar acaso rarefeito, chegou da tua boca o oxigênio  de me dar vida fora de mim.  Ao ouvir teu sim recolhi lenha, juntei gravetos, até panela lavei.  Comeríamos nos olhando,  numa mesa simples de madeira ressuscitada.  Foi pela janela que roubei tua mão,  andar tão térreo e acessível que não precisaste me jogar teus cabelos.  Hás de lembrar de toda  ausência de promessas,  pois sempre pude sem grandezas. Hei de lembrar que jamais duvidaste.  Em que paraíso te sonhei, meu amor? Que construções ergui,  com minhas mãos atrapalhadas, no desejo de dar um teto pra ti? A água do nosso primeiro rio  voltou várias vezes, sem correnteza, nos banhamos na memória do que fomos. E seguimos, os mesmos e renovados. Queli, mulher-torre, iluminadora do sol, teu facho-sorriso é o farol  das minhas navegações errantes,...

Punhados de sol

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Recolhíamos, numa garrafa de vidro verde, punhados de sol e três goles de lua. Era a nossa poção para  prolongarmos ao máximo  o horário de entrar em casa, cada um na sua,  apartados pelo estado civil de apaixonar-se na infância. 

Que assim seja

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Quero a poesia puta  quando assim desejar, freira se for seu intento. De mãos dadas com o poema ou entrelaçada com a prosa.  No verso a corrente elétrica, no anverso a artéria  do sossego rompida.

Nosso convívio

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Tua mão, mesmo machucada, tem força para trazer o luar até o nosso convívio amoroso.  Em cada gesto dolorido dela há uma delicadeza com ímpeto, um fazer-se mulher superando um bocado de limitação.  Coloca tua mão ferida no aconchego  de janelas abertas da palma da minha mão: posso te ajudar a segurar a lua.

Namorada

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Sinto tua pele nos batimentos cardíacos  das minhas mãos e boca. Sinto o convite dos teus olhos  quando a tua cintura é ilha. Sinto tua ternura quando repousas  teu pequeno e leve cansaço  no colo do meu carinho e do meu abraço. 

Calças-curtas

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Longe, um ruído de bolitas se chocando traz um varal de calças-curtas à memória. 

Meu país

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                     (fotografia: Mirian Ritzel) Meu país era a rua Ernesto Barros  conversando animadamente  com a rua Juvêncio Soares  lá em Cachoeira do Sul.  Era um país pequeno e arborizado, com ruas paralelepipedadas, um terraço com céu de verão, muros de baixa estatura. Uma bilha rente à janela verde, pão coletivo no ventre do forno, calçadas percorrendo crianças, o sumo da infância nos galhos. A lâmpada que adiava o final do dia, a cerejeira que brotava mãos, o campinho iluminado por vaga-lumes, a polpa das brincadeiras sendo repartida. Os degraus de chegar ao íntimo das casas, laranjas vindas do céu já sem casca, o relógio da igreja nos furtando 15 minutos, o manjar frutífero, a bola com fome de gol. O carrinho no lombo depois que  terminava a lomba, a sapata, a lua com seu silêncio eloquente, o nascer da amizade ao abrir a janela. Os temperos verdes e perfumados da Marieta, a bica servindo água no ...

Alquimia

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Teu beijo é uma alquimia  entre novidade e delícia.

Se

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Se eu puder adentrar tua porta  levarei um punhado  de sementes de amanhã.  Se eu puder visitar o teu cômodo mais íntimo  semearei o tempo vindouro  diante do nosso olhar. Se eu puder permanecer  no teu cotidiano colherei com ambas as mãos  a imensidão da vida. Se eu não puder colher, nem semear,  sequer adentrar tua porta,  farei ninho pra ti em cada recanto  que a minha ternura puder imaginar.

Aurora

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No côncavo da nossa mão, no lugar da pedra, uma centelha de sol para acender a aurora. 

Namorada

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  Gosto quando derramas  teu olhar em mim. Bebo cada gole desse  teu dizer sem palavras. E sempre fico embriagado  deste fascínio que é  te querer a cada instante.

Namorada

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Tu repetiu o movimento da primeira vez: aconchegou tua boca na minha. Tenho fraqueza de nunca recusar beijo teu.

Nó desatado

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                           Onde houver gravata,                          que eu leve o nó                           desatado do riso.

Imensidão

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O homem jamais é pequeno  diante da imensidão da beleza.  É ele quem acende e reacende  a chama da sensibilidade compartilhada.

Quatro nomes

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Queli Oliveira Cambraia Soares, nome de companheira, árvore, tecido e família.  Nomes onde o sol vem pedir luz e o córrego vem buscar água.  Tuas palavras são exatas, teu sorriso é ninho das melhores alegrias. No teu colo a agitação  espreguiça suas pressas, no artesanato das tuas mãos  a madeira cansada rejuvenesce. Nome composto de imaginação, filosofia, arte e sossego. Tua boca é a casa do beijo, labareda que inicia o dia, desejo incansável.  No veludo da tua nudez estão meus melhores trajes, outeiro onde plantei minha vida.

Proclamação

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Autoproclamo-me prefeito de Cachoeira do Sul. Restauro de pronto a mão dupla  na rua Júlio de Castilhos. A fachada do cine Astral deve estar livre e desimpedida no máximo em 24 horas.  Desvie-se o rio Jacuí para que ele corra  paralelo à rua Ernesto Barros. E que sejam instalados na suas margens bancos de escorar preguiças. De seis em seis meses a cidade sediará  a FENAM, Festa Nacional da Memória. As bolitas mais gastas serão premiadas e as árvores mais antigas serão abraçadas.  A estação de trem será itinerante e cada morador deve contribuir com ao menos um tijolo para ser dissolvido  na recomposição do Morro do Cascalho. As demais providências serão publicizadas aos pouquinhos, pelo vendedor de encrencas. Publique-se aos quatro ventos.

Claridade íntima

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Diz lâmpada ao momento e espera,  espera com luz própria e imensa  no vão enluarado da palavra noite  e da sua cama conjugal.

Andarilhos

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São pés inquietos e ternos, jamais pisaram em alguém.  Têm o dom do outono,  folheando os caminhos  com leveza e sonho.  Têm atitude de primavera,  petalando as calçadas  com a memória  das geografias diversas. Adoram as lambidas do mar,  o calor da areia fina, o aconchego das meias  que o inverno traz.  Sempre que podem procuram  o norte no sul de si mesmos.

Quietude

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                      (fotografia: Jane Balen) Estou livro fechado na quietude da minha cama. Amanhecerei com novas curiosidades, incompleto de saberes,  repleto de ignorância enorme. Uma palavra desconhecida, uma frase de algum autor preferido  uma imagem, o sussurro do vento, um dito infantil e um suspiro das folhas farão com que eu sinta um prazer enorme  em buscar o seu significado.  Direi amores em tom de novidade  e terei um abraço melhorado para dar. A correnteza das coisas vai me percorrer, produzindo eletricidade aqui, calor de lenha mais adiante. Com o passar das horas estarei completo, será novamente o momento de desligar  meu maquinário de enumerar coisas. E apenas navegarei em mim.

Aportar

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Amanheço-me com o tombo do teu vestido  perfumando cada gesto que irei te entregar.  Zarpar tem sido aportar em ti.

Março

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O mês de março está na estrada, de mochila às costas, uma centelha de sol no olhar. Vai pedir carona, decerto. O caminho é íngreme e sem bergamotas, mas o desejo de saborear distâncias  torna cada percalço um gomo a ser consumido.

Namorada

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Ouço teu pequeno barulho  de córrego do interior  enlaçando de água  o peito da minha proa.  Ah, o redemoinho de doçura que teu olhar causa  na minha navegação. 

Reiniciar o mundo

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Não planto amor-perfeito, cuidando as fases da lua, esperançoso e paciente  no "quem planta colhe". Quero mesmo é teus seios  pedindo minha boca, tua cavalgada de dona, colher tua cintura, reiniciar o mundo contigo. 

Namorada

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Já te disse tanto com os olhos e com a mão pousada em redemoinho  na seda do teu antebraço que agora todo tempo perto de ti é uma colheita do silêncio  mais esclarecedor e meigo

Mundos

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Sei que minhas esquinas não são  do interesse público. Cada um tem suas quinas, onde os ventos brincam de redemoinho. Sei que a água que bebo elimina apenas a minha sede e muitos não têm nenhum pedacinho de rio a seu dispor. Sei que minhas lonjuras,  mesmo estando perto,  não são itinerários a serem seguidos  por quem quer que seja. Sei que ninguém quer saber  do cordão umbilical que me  mantém atrelado aos trens  que não passam mais. Apesar de saber deste bocado de coisas, tenho a pretensão de criar mundos, onde cada palavra seja uma via-láctea.

Um poema de amor

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Após eu colher teus seios fizeste pra mim um poema  de amor entreaberto:  um pedaço de seda do teu colo,  da coxa, uma chuva que se anuncia. Tens dedos geográficos,  pequenos animais de arrepio. O amor está dito, as bocas confirmam. Ávido, colho agora todas as tuas metáforas.

Lembranças

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Vivo beirando este rio de lembranças, onde as árvores sobem  pelas minhas pernas, a sapata pula minhas  casas numeradas, as estrelas me espiam à noite. Não há dia em que  não jogue a minha rede  e a recolha cheia de lua.

Neli

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Vivia de não morder, mastigando apenas. Jovem avó, tinha as gengivas  de recém nascida, nuazinhas, e sem as febres do nascer dos dentes. O que não quer dizer que só  gostasse de sopas: comia até rapadura, sem pressa e em até quinze dias. Era valente pra qualquer serviço,  máquina risonha, vontade de trator. Sozinha por desgosto e razões  de em mim homem não bate, conheceu um homem  nas suas andanças de procurar lenha.  Era pacato e dentuço. Sem muitos comedimentos,  as bocas se encaixaram à perfeição,  sobrando-se em delícias de não  se narrar os detalhes, que é gente sem exibicionismos.  Repartiram as felicidades, que tinham em abundância, e sempre que era época ele mordia  uma pera ferro,  dura que nem bigorna, para dar pra ela.

Vô Daniel e o neto Zezinho

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O pequeno neto, de procedência augusta, ainda não entende o português, mas já consegue compreender o significado da mão protetora do avô: "sinta-se abençoado, meu pequeno. Minha mão tem telhado e paredes firmes, tem passado e quero que tenha futuro para que eu possa ser presente. Esbanjarei com gosto e alegria  minha experiência lúdica contigo. Serei teu escorregador, balanço, cadeira preguiçosa e árvore.  Dorme tranquilo, meu neto amado, na nossa história bicho-papão não entra."

Samuel de Aguiar Soares

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Meu pai tem 92 anos e dois meses de idade e carrega no bolso a palavra brincar. Fecha a janela para a palavra inverno, desconhece lamúrias e o impossível. Inventa-se de outono e superação.  Tem faceirice em estar na infância da velhice. 

Namorada

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Acordei e sonhei contigo.  Cheguei a sentir o veludo da tua pele, a luz dos teus olhos carregados de mel fazendo fotossíntese  nas atividades noturnas  das minhas mãos pelo teu corpo.  Quero adormecer  no côncavo do teu abraço  e madrugar meu passeio  no prazer de repartir vida  com quem desanoitece cada instante.

Perfume do luar

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Uma brisa leve como afago de mãe  permitia sentir o perfume do luar. Um buquê de beijos se despetalava pelo vão do nosso silêncio. 

Revisitando a casa

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É tempo de colher uma lavoura antiga, esquecida no ofício de sobreviver. O íntimo da casa faz estalar a madeira  verde das lembranças.  Prosa e verso estão de mãos dadas num álbum que herdei, ao lado de uma maria  que solta baforadas, na estação que partiu. Um carpim, pai solteiro, grávido de bolitas,  está pronto para o parto. No sótão há uma balbúrdia de fantasmas, gasparzinhos todos eles.

Namorada

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Aconchego tua voz na minha coleção  de delícias e sussurros. No pátio do que sinto  há voltagem suficiente  para acender tua ternura.

Eu estava escrito

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Era longe, muito longe de ti,  na distância intransponível  da tua ausência,  que eu me encantava, te dando meus olhos,  cuidando da tua mão. Uma sutileza qualquer  me trazia tua presença inventada,  eu era capaz de cometer  as maiores ternuras. Eu estava escrito, tu não lia.