Postagens

Mostrando postagens de abril, 2025

Entalhes

Imagem
Queli, companheira de longa data, prefere os entalhes feitos na pluma  por Ítalo Calvino aos entalhes feitos  na pedra por Saramago. Queli é mulher levíssima, jamais quebrou vidraças alheias.

Na poética do Belchior

Imagem
Estava mais angustiado  que o centroavante  que perdeu o gol, quando chegaste em mim feito uma lua no quintal. Não tenho amigo analista  e nem quero encontro casual, basta teu amor para eu ser feliz direito.  Não foi por medo da solidão  que eu segurei pela primeira vez a tua mão.  Era apenas o início do termo vontade de alguém sozinho a cismar. Gente da minha rua, eu nunca andei distante. Há tempos, cinco minutos, que estou longe de casa e nesses continentes de grande aglomeração só o que  quero é voltar para o ninho, pois estou morando com a filosofia.

Tua flor

Imagem
Quando tua mão vem dizer ao meu ombro  que a intimidade tem luz própria bebo a claridade num copo de enlevo, digo vindima outra vez e colho tua flor.

Nuvem de versos

Imagem
Não era cedo nem tarde, a hora certa talvez. A estiagem já habitava a cacimba dos olhos. O poema se evaporou e foi chover sobre o teu telhado. 

Namorada

Imagem
Tenho urgência de ti aconchegar inteira  no ninho do meu abraço. Ter claridade de lua para não  ofuscar teu olhar de brilho único.  Enovelar ontem e anteontem a quatro mãos contigo. Desamarrar festivamente  a linha da pandorga do amanhã e beber tua correnteza rumo à foz do amor. 

Continente

Imagem
Ó Portugal, fico aguado de ti quando o Tejo  se derrama no Jacuí lá em Cachoeira do Sul. Recém chegado, Fernando Pessoa  folheia o desassossego na descida dos trilhos. Meu fado é azulejar as cachoeiras da memória, caravela em busca de vento, mesmo que presa na proparoxítona âncora.

Lendo o mundo

Imagem
Eu ainda era analfabeto,  nasci assim, não nego, e minha mãe vinha ler pra mim  uns bocadinhos da Enciclopédia Delta Júnior.  Lia sem pressa, com a voz cálida, quase um sol noturno,  me mostrando as figuras. Por isso que sempre associo minha mãe  às Enciclopédias, misturando os carinhos e saberes maternos à história do mundo.

Mais que um Francisco

Imagem
O nome de batismo era Jorge Mario Bergoglio, mas humanizou-se tanto, tanto, que virou Chico,  um amigo fraterno dos vulneráveis.  Fazia-se de telhado, muro de proteção  e era naturalmente fonte de luz.  Nele o ouro era opaco, a pompa era fútil, enquanto qualquer pedaço de madeira reluzia,  furtando o azul do sorriso de mãos estendidas.  O Chico vestiu serenamente o Jorge,  trazendo simplicidade ao ato diário  de amanhecer-se para os outros.

Namorada

Imagem
Com os olhos carregados de mel, suspirando e nua de pudores,  resolveste passear pelas minhas mãos. Teus recantos pedem as minhas falanges. Produzimos sol juntos, acesos num arrepio.  Após a batalha de mentirinha  meu coração adormeceu  na curva derrapante do teu ombro.

Geografia de abismo

Imagem
Teu caminhar sempre traz uma volúpia renovada. Meus versos querem te beijar, apalpar tua geografia de abismo. Entrelaçar vontades, habitar teu olhar, repetir a doçura de ti desnudar.

Uma cadeira para a ternura

Imagem
Fui feito por quem gosta de olhar as estrelas, gente que não olha por onde anda e sempre tropeça na alegria. Fui treinado para encontrar a fonte que nunca seca e nem descansa, fabricante da correnteza e do musgo. Um dos primeiros ensinamentos  que recebi foi de permanecer  na varanda do mundo, tendo ao lado uma cadeira para a ternura. Como refúgio e cuidado com o horizonte  me indicaram a gávea de um abacateiro, no caminho dos pássaros de carreira. Fui designado para cuidar  do projeto do fogo, mantendo sempre seca  a caixa de fósforos no bolso. Por último disseram para eu ficar atento  para que todos recebam seu bocado de pão. 

Namorada

Imagem
Amo porque sou incompleto  de ternura e troca de olhares. Amo como se plantasse uma árvore nova em meu peito, esperançoso em lembrar do ontem, saudoso do amanhã que telha o caminho íntimo e plural. Amo desnorteado de sul, inebriado com o aroma do pequeno córrego  que surge da nascente dos olhos. Meu ouvido aconchega a tua voz e no pátio do que sinto há bancos confortáveis  para o teu silêncio amoroso.

Vida

Imagem
Era outono e uma árvore frutificava pássaros, numa algazarra esvoaçante.  Mil baldes de tinta azul haviam sido  derrubados no horizonte,  sem qualquer fiapo de nuvem. Pensei: coisa boa que a vida não terminou hoje.

No caminho

Imagem
Ela apalpou de leve a própria vida. Já não tinha pressa nem angústia.  Desfez a horta dos rancores e pensou:  "Não sou, vou sendo."

Meu avô e Olavo Bilac

Imagem
 Cachoeira, 14 de outubro de 1916.  Olavo Bilac acachoeirou-se na Estação Ferroviária   febril de gente e festa. Instalado no Hotel do Comércio, estava dormindo quando ouviu uma voz que vinha da rua: "Olavo, ô Bilac, quero falar contigo." Lá fora estava meu futuro avô Pedro, que ao ouvir falar da presença  de tal estrela, quase perdeu o senso.  Pálido de espanto, Bilac abriu a janela  e disse: "Tresloucado amigo,  que queres a essa hora em que a Via Láctea inteira repousa?" Bêbado de emoção, meu avô, que tinha algumas  luzes de lampião, respondeu:  "Tua nobre presença  à lembrança a grandeza  da Pátria nos traz." Comovido diante de  tão inesperada aparição,  o poeta agradeceu: "Quanta alegria em ter ouvidos  para ouvir brotar da tua voz,  até então minha desconhecida, esta pétala da última flor do Lácio,  que porventura coube a mim trazer o aroma à publicidade." Sem atinar para o dito, cansado por conta...

Namorada

Imagem
Posso dar ânimo a tua mão  cansada da labuta e do receio.  Posso despertar o riso das meninas dos teus olhos.  Diante da tua ausência  faço melhorias na ilha que artesanei para ti receber. 

Enrosca tua saudade

Imagem
Ajeita teu pijama,  que o primeiro botão  não encontre a casa. Fecha teus olhos  e abre as janelas da lembrança.  Enrosca tua saudade  na polpa acesa do que sentes. O amor não respeita horários  e faz das horas extras um lume  que queima os sentidos.  A lua segue crescendo  na minha ausência, bem sei. Desabotoa teu futuro próximo  no meu peito assim  que nos reencontrarmos.

Estação perdida

Imagem
                            (para Mirian Ritzel)  No início dos anos setenta colheram os trilhos da Estação Ferroviária de Cachoeira, vistos como erva daninha para o progresso municipal.  Do metal abundante fizeram gume  para machucar a nossa memória  e machados para tornar  a Estação lenha de um passado a ser queimado no fogo da desmemória.

Namorada

Imagem
O que eu quis primeiro foram  teus flancos de veludo, tua cintura ensolarada, teus olhos pedindo a minha boca. Teu sorriso é um abraço imenso, teus receios pegam carona na revoada da melancolia.  És a casa do silêncio vigoroso onde cabem meus mundos.

Suspiro

Imagem
Teu suspiro é diferente: brota dos teus olhos e produz  uma corrente de arrepios que percorre os poros do meu desejo. É noite ensolarada na química  sempre carinhosa dos nossos corpos.

Ondulante

Imagem
Vai a moça ondulante, descalça de formalidades. No peito um porto, na polpa dos desejos mais que vento, inventos.

Movido à casa

Imagem
Aprendi a dirigir em um  fusca cor de telhado. Tudo em mim é lembrança de casa.

Pequena biografia

Imagem
Robson Alves Soares nasceu  em Cachoeira do Sul - RS. Caçula de uma família de sete filhos,  está pronto para se aposentar desde os 11 anos de idade. Cultivou por muitos anos bolitas, dando sol e água à plantação,  nunca obteve colheita. Trocou de lavoura:  agora só planta proparoxítonas.  Tem colhido relâmpagos e dúvidas.

Amizade

Imagem
São mais de cinco décadas de convívio. Cada reencontro é uma porteira aberta  para o riso e para o bem-querer recíproco  e sem data ou motivo para acabar.

De par com a solidão

Imagem
Ela buscou nas gavetas as coisas  restantes do casamento. Sovina pra dividir o marido, retirou ele do convívio diário, íntimo, de coisas simples. A gaveta, outrora repleta,  tinha agora o vazio dos  primeiros bilhetes trocados, das juras de amor envelhecidas de sinceridade. Observou atentamente a solidão do seu dizer, abraçar, beijar na boca, organizar o futuro, amanhecer-se acompanhada. Descobriu que a solidão é ótima namorada, mesmo que não seja um namoro sério. 

Namorada

Imagem
Estou empobrecido de mãos e boca, tantos foram os caminhos que percorri em ti.

Proposta

Imagem
Eu gosto dos pronomes oblíquos,  por isso disse que te queria e te faria feliz. Também me agrada o uso  dos pronomes possessivos: minha! Adjetivo muito substantivo   é comigo: enamorado. De superlativos eu tenho  os bolsos cheios: gatíssima! O futuro mais perfeito que o pretérito  é um pronome reto: nós.

Túnel do tempo

Imagem
Cada dobra de esquina, sol na janela, cada instante do olhar, pergaminho, é um túnel do tempo em Ouro Preto.

Namorada

Imagem
Tuas coxas enlaçam a fome que  sinto de te tocar a qualquer hora. O turbilhão que é tua boca paralisa as tardes e as revoadas. A nudez dos teus olhos busca cada palavra que eu ainda não disse, é o teu jeito de me querer por inteiro.  Teus suspiros fazem promessas  que todo teu corpo sabe entregar.

Causos do Tio Lotário

Imagem
Tio Lotário naceu em uma coxilha, no dia premero de março de 1900. Naceu léguas antis da hora, a casa era na várgea. Décemo filho, oitavo que não  ia virá anjinho no céu prematuro. Saiu da mãe como quem vai dá bóia pros bicho: passo firme e de olho nas nuvem. Caminhou na hora, sua mãe tinha mais o que fazê do que pegá guri grandi no colo. De enxoval ganhô canivete, dois anzóli e todo o campo de urinol. Ficô criança só até o otro dia.

Banho de aurora

Imagem
Um vendaval açoita a casa da tua bondade,  rasgando o véu de luz da tua doçura.  Sugiro que protejas tua consciência,  tua verdadeira riqueza,  com o guarda-chuva de aço puro  que os percalços da vida  artesanaram no teu íntimo. Uma casa destelhada permite  ver as estrelas e a aurora,  é disso que precisas agora:  desanoitecer teu espírito  e tomar banho de aurora.

Na morada

Imagem
Ah, namorada, tenho a pretensão  de que causo um oco  na morada do teu peito  quando estamos distantes. Imagino que a minha ausência  te cause um acesso de suspiros e que a lembrança da minha voz dizendo "te quero" cause um alvoroço  nas janelas dos teus ouvidos. Imagino ainda que as tuas mãos  ficam aflitas por não poderem  me alcançar o pólen do teu carinho na intenção sempre renovada  de florescer nosso querer mútuo.

Namorada

Imagem
Peço um favor: deixa aberta a janela do teu sonho. Quero te enviar um bocadinho do lume da lua e um grão  do voo de um passarinho. Que tua angústia fuja pela chaminé da alegria, que teu pranto dê vida à flor  ressequida das possibilidades. 

Revoada

Imagem
                      (fotografia: Jane Balen) Recolhi o voo do amanhecer  com minha arapuca de teia de aranha. A laranjeira do quintal dos meus olhos  frutificou um casal de sabiás.  A revoada do encantamento  cerziu a curva do tempo.

Caminho descalço

Imagem
Pertenço a este caminho antigo, tão antigo que o chamam de antanho. Sou filho de uma urbanidade miúda,  atravessada de veredas rurais.  Há em mim o analfabetismo da terra, carregado na carroça da erudição  das coisas mais singelas,  feito um bom dia de vizinhos,  o colo de poltrona da avó  ou perguntar ao formigueiro  a que horas chove.

Namorada

Imagem
Ela escreveu "te gosto" na página da saudade. Ele ficou encantado e viu um ramo  de estrela cadente se despencando para a fresta da alegria imensa. Assim são as palavras: têm mãos, memória olfativa, podam distâncias.

Verbo de vitrine

Imagem
Poemar: ação de conversar  consigo mesmo em voz alta para que os outros ouçam.

Esperança

Imagem
                       (fotografia: Jane Balen) É contagiante quando o barco da esperança consegue aportar após uma navegação  nem sempre segura e calma. O presente que faz brotar o futuro  só pode fazer fotossíntese  ao alimentar-se de horizonte.

Crônica do outono

Imagem
Não sei distribuir pedras em alicerce, sequer consigo desenvolver saberes anteriores à idade do ferro,  tais como fazer fogo, adivinhar chuva, pescar, cozinhar e engravidar a terra. Consigo compor mosaicos de vento, arborizar a infância, esquinar o peito, consigo abraçar feito amigo de longa data. Gosto de regressar, tecer pequenas razões, carregar ternura na algibeira do corriqueiro. Nasci numa rua larga, calçada de crianças. 

A roda do mundo

Imagem
                      (fotografia: Ruben Prass) Eu girava a roda do meu mundo em acelerada ladeira de mim mesmo. A infância não tinha gravidade, apesar de o chão puxar a gente para o tombo que requeria mertiolate. Tudo era presente, que desembrulhado, virou este amanhã em que agora escrevo.

Ternura

Imagem
Posso florir as mãos que cultivaram teu jardim quando o outono era uma criança  na pracinha de brinquedos do mundo.  Posso lembrar com meu corpo da tua porta aberta e estrelada quando a árvore do teu abraço colhia todo o fruto disperso. Posso outras tantas miudezas que me valem por grandezas: levar teu soluço num embrulho térmico junto com teu riso que é bálsamo portátil  e no bolso o castanho dos teus olhos para adubar a minha ternura.

Sossego

Imagem
Ouro Preto amanhece sem pressa, o sol é trazido no lombo das mulas e os relógios ainda estão na infância do tempo.

Sujeito composto

Imagem
O poema é um cachorro apressado, vem, fuça no lixo e segue adiante, procurando o osso da infância.  É uma flor arrancada da terra, solta em espasmos seus últimos perfumes.  O poema é um velho brincalhão, que na meia-idade só pensava em lucros, é bergamota em galho baixo, fácil de descascar, só pede dedão.  O poema é uma criança dando asas às pedras, viajante que comprou passagem para a lua, ave de arribação, tem desassossego em ficar. O poema é outro assunto, rio que foge da água do mar por padecer de pressão alta, é uma moça que amanheceu  apaixonada para sempre, é carpinteiro versado (sem rimas) em serrote, martelo, formão, plaina, e quer ser trocado por guloseimas.

Semente de lume

Imagem
Este outono tem sido primaveril: todo dia o céu oferece a brotação da lua, semente de lume para um buquê de fases.

Mulher

Imagem
És tu quem faz a pétala do fogo, o gosto de noite clara que a lua traz. Teu colo é colcha de estrelas, teu artesanato é lúdico.  Tuas mãos trazem o pão, tua cintura faz a rotação do mundo. Em ti o caule do tempo se fortalece a cada momento. 

Pra ti

Imagem
Ainda tenho tanto pra ti dar: água na concha das mãos, primavera nas noites de julho, metáforas que trago nos bolsos, o entardecer que é porta aberta, a ternura no jardim dos olhos.