O poema é um cachorro apressado, vem, fuça no lixo e segue adiante, procurando o osso da infância. É uma flor arrancada da terra, solta em espasmos seus últimos perfumes. O poema é um velho brincalhão, que na meia-idade só pensava em lucros, é bergamota em galho baixo, fácil de descascar, só pede dedão. O poema é uma criança dando asas às pedras, viajante que comprou passagem para a lua, ave de arribação, tem desassossego em ficar. O poema é outro assunto, rio que foge da água do mar por padecer de pressão alta, é uma moça que amanheceu apaixonada para sempre, é carpinteiro versado (sem rimas) em serrote, martelo, formão, plaina, e quer ser trocado por guloseimas.