Gosto quando amanheces o meu dia com uma penca de passarinhos. Gosto de saber que teu olhar fará revoadas pelo ninho do meu desejo. Gosto, um gostar puro, de saber que gostas.
Gosto quando derramas teu olhar em mim. Bebo cada gole desse teu dizer sem palavras. E sempre fico embriagado deste fascínio que é te querer a cada instante.
Depois, com nossos corpos cansados de amor e troca de delícias, falamos de várias coisas: da alegria do reencontro, da tua dor no ombro, da água quente e calmante. E rimos, rimos da vida.
Minha mãe teve pensão no lugar do útero. Era lugar muito aconchegante, com sacada de frente para a imensidão da maternidade em tempo integral. As janelas raiavam o sol na primeira tosse do galinho garnizé e as portas da bondade sequer tinham fechaduras. As refeições eram umbilicais, numa mesa íntima e feliz. O corrimão lustrava fundilhos e no pátio havia uma parreira de pêssegos.
Sei cada pedaço teu pelo tato do meu coração atento. Admiro tua vontade incansável, teu fazer-se mulher mesmo quando da ausência de remos para levar adiante o barco de navegar pelo cotidiano. Quero te presentear com todos os cômodos da palavra carinho. Mobiliar teu peito com um domicílio de árvore e um bater de asas, uma junção de ir, vir e ficar.
Este poema começa e termina na infância. Dois versos espiam ao redor da noite e, num único impulso, pulam o muro do pátio silencioso e frutífero. Com a pressa que o medo acelera, colhem sílabas e metáforas maduras. Enchem o cesto poético com a abundância da estação. De volta à rua, na segurança da prosa, soltam gargalhadas de estrofes.