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Mostrando postagens de maio, 2025

Namorada

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Tuas pernas enlaçam  minha libido em brasa, tua boca mata a minha sede. Teus olhos alcançam mel  ao banquete do instante, teu suspiro para o tempo.  Tuas ancas marcam o limite  do nosso pequeno mundo,  teus seios colhem as minhas mãos.

No coração da gente

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               (fotografia: Jussara Smaniotto) As janelas florescem  os recados do tempo:  a pedra dura que dura,  a pétala que exala  o aroma da fugacidade,  o suspiro da saudade.  No coração da gente  o sofá do convívio  sempre tem lugar,  é ali que a vida germina,  ri, brinca ou chora,  fugaz mesmo que dura.

Coisas de guri

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Distraído, chupando parafusos  até que virassem pregos,  não notei que tardava amanhecer. Ouvi um pigarro do sol, britanicamente comedido. Fui investigar. Ah, gurizada arteira! Tinham amordaçado o galinho garnizé.

Mãe

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Observo tua candura, mãe, feita com as sobras do tecido do teu catolicismo primitivo: chão puro, telhado possível, disposição recém nascida. Conheço o vigor da tua seiva, alimento otimista, vitamina, jorro cuidadoso e alma. Bebi da tua simplicidade vida afora, mãe, ímpeto, casa ambulante e ambulância. Esse teu jeito de tocar  cada criança, como se  teu neto fosse, ainda nos levará ao paraíso aqui na Terra,  lugar em construção.

Embriago-me

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Baudelaire, queria te dizer  que uso teu receituário com gosto: embriago-me diariamente.  Raramente com vinho,  sempre com amor e poesia.  Vivo cambaleando nessa  embriaguez proposital,  tropeço na poça d'água com luar,  abro a janela de ontem,  espio o jardim de amanhã.  Embriagado, caro Baudelaire,  caindo de bêbado de tanta ternura.

Namorada

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É preciso que saibas: eu te espero com as minhas mãos  carregadas de ternura e futuro. Nos bastidores dos meus olhos há espaço para o nosso passado. O presente? É tu de olhos risonhos.

Todos juntos

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Fica decidido assim: iremos todos juntos.  A partir de agora ficam  banidas todas as réguas, todas as medidas que hierarquizam. Iremos de mãos dadas ou soltas, repartindo caminho e horizontes. Rio, e que não seja com a água  dos olhos dos outros. Vale abraçar árvores e espiar ninhos, vale inspirar verde e expirar azul. Iremos todos juntos na carroça  da primeira pessoa do plural, com os olhares entrelaçados. Nas mochilas, fartura de bondade  e uma linha pra enlaçar a lua. Que cada um traga seu sol!

Lâmpada acesa

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            (fotografia: Bernardo Soares Mazuim) Um fio de esperança amadurecida risca de energia o horizonte próximo acendendo outra vez a lâmpada perpétua. 

Namorada

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Já te nomeei pétala de fogo,  semente de sol, favo de delícias.  Colhi teus seios maduros  com minhas mãos queimando de ternura. Minha boca passeou pela  seda da tua geografia, tua gruta me aconchegou.  Mesmo assim, és sempre novidade,  cesto de carinho enluarado.  Precipício amoroso, fruto de luz, lençol de estrelas cadentes. 

Copo de estrelas

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Guardei todos os recados que recebi  das curvas do caminho,  do acasalamento das folhas com o vento. Arborizei minhas mãos  com as sementes do olhar, distribuí os gomos das metáforas que enxertei. Criei um relógio da lua, onde os minutos escorrem uma claridade suave e enamorada.  E sempre que posso tomo um copo  de estrelas cadentes diluídas no horizonte.

Um novo começo

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                    (fotografia: Jane Ballem) Há sol na nossa correnteza diária. Espero que o rio proteste  contra as margens e procure um novo leito, insinuando que somos barcos.  Não será tarde, será apenas um novo começo.

Namorada

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Encontro feito a quatro mãos,  permuta de sensibilidades.  Gole de água fresca, colheita de bondade. Telhado protetor, porta entreaberta, janela para o futuro imediato,  pátio arborizado de passarinhos.  Riso de pluma, rio doce e sem pressa.  Pracinha alegre, porto sem amarras,  âncora voejante, anoitecer com preguiça.  És início, cortina do amanhecer,  estrada viajando em mim.

Namorada

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Talvez seja necessário repetir, repetir, que tens pouso certo no meu pensamento.  Dizer inúmeras vezes que teus olhos  me acalmam, tua voz me empolga. Renovar com fogo e água a paixão  que sinto por cada gesto teu. Revisitar teu quintal, espiar tuas janelas, rir dos teus gracejos, acariciar tua mão.  E repetir, repetir, o quanto é verbo novo te querer de coração leve e quase juvenil.

Sugestões

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Não te darei receitas, poções mágicas, placas indicativas. Sugiro apenas que leves na mochila algum farelo de sol, a lua crescente, a lágrima da saudade  e tua inesquecível primeira esquina. 

Na intimidade

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Quero me encostar em ti, arredondar minhas mãos  na tua bunda e crescer-me, sem enormidade, apenas o que sou.

Horizonte iluminado

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Ao ingressarmos na BR 153 no caminho para Cachoeira, vindos pela BR 290, nas noites límpidas  e de boas memórias, víamos um horizonte iluminado: era o Cruzeiro que encimava  o Morro do Cascalho. A catequese geográfica da cidade, lúdica, feito vitrine de Natal.

Namorada

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Fico tomado de sol quando te vejo contente.  Nessas horas sou capaz de fazer  chover pétalas de carinho. Somos uma mistura de chuva e reencontro, suavidade e mãos despudoradas, olhos nos olhos e encantamento.  Eu sempre te percebo.

Eclipse

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Gostava de espiar o sol através da radiografia do braço forte do pai ou da radiografia da mão delicada da mãe. Até que um dia viu, com olhos de descobrir coisas, o acasalamento da lua com o sol. Soube então, cientificamente, como nascem as estrelas.

Gente

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Amarrei o cabo da minha boa esperança  ao coletivo de gente que acorda  a manhã ainda de noite. Gente que move o mundo  com o trator do próprio corpo  e arredonda as rodas quadradas do fazer. Gente que é chuva e sol fazendo germinar a flor do abraço e a folha do cuidado. Gente que constrói todas as formas do vidro com um punhado de areia e come a labuta. Gente que aparafusa o mundo em jornadas  de uma vida inteira e usa a casca grossa  do dia para adubar o canteiro do sono.

Plauto Júnior

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Nosso amigo Seco partiu para  o desconhecido há um ano. Levou junto décadas de convívio,  deixou uma doçura de eterna criança.  Era um sujeito generoso em tempo integral  e jamais carregava mágoa na mochila da vida.  A cada reencontro tornamos a falar sobre ele  e o tom é sempre o mesmo:  um cuidado, uma proteção à memória  desse ser humano muito humano. Pensando bem, o Seco ainda não partiu.  Vive com a gente e partirá apenas quando  o último de nós for embora deste mundo.

Nós e o tempo

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Quando as janelas das tuas pálpebras  decidem encerrar o dia  a lavoura de estrelas irrigada por teu riso faz brotar a luz que alimenta o beijo.  Nossas bocas se deliciam com os dizeres da voracidade, num ménage entre nós e o tempo.

As mãos do tio Lotário

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Tio Lotário tinha terra nas mãos:  bastava um punhado de sol  e dois goles da água da chuva  para que a primavera do arroz brotasse  naquela pequena seara.

Eram oito

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Eles eram oito quando cheguei: a mãe, o pai, duas irmãs, quatro irmãos.  Eu não trouxe nada, um litro de leite, uma muda de roupa sequer, um quilo de arroz que fosse, nem ao menos um Tratado sobre  as Forças e Fraquezas dos Caçulas. Os oito tinham tudo que eu precisava. Minha mãe era um telhado de santa fé, meu pai uma fortaleza de muros grossos, meus irmãos e irmãs eram lanternas, árvores novas, descobridores do fogo, alquimia de dar valor de ouro às bolitas, prumo de inventar curvas nas pilhas de tijolos, creche com pós-graduação, Kombi.  Eram oito e me aceitaram. Ficamos nove.

Ternura

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Fuxicou com os ouvidos  os silêncios do homem. Queria detalhes, quem foi,  até que horas ficou. Era uma mulher de meia-idade  há uns vinte e cinco anos. Tinha umas belezas que  mudavam conforme a cor da roupa, em acordo ou desacordo  com o cabelo preso ou solto, alinhavadas por um olhar sempre novo e incansável.  De natureza bisbilhoteira,  exclamava interrogações. O bichinho geográfico  da curiosidade tamborilava  nos dedos dela, mas não queria usar a autoridade de quem dividia a cama há décadas.  O homem se lavou de serenidade e se enxugou na preguiça de falar. Ela fez um beicinho de adolescente  de setenta e cinco anos. Inebriado, ele se vestiu de ternura por ela.

Um longo tempo

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É necessário o correr dos anos, que o olhar tenha rugas para que  a gente possa entender as estações,  a fruta verde, madura, no chão. E o meu coração ainda descompassado  diante da doçura da tua nudez.

Novelo

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A boa e silenciosa senhorinha,  vestida com seu casaquinho de lã, espia a intimidade da casa em busca de algum recanto para enovelar-se durante à noite.