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Mostrando postagens de fevereiro, 2025

Delicadezas

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No teu olhar desnudado faço cama de acender as delicadezas da noite.

Namorada

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Teu bom humor é componente importante  no arranjo diário da minha libido,  é chuva que lambe a seara em fogo  que tenho nas mãos que te apalpam.  A multiplicação dos nossos beijos é um incêndio de mel puro nos vãos secretos dos dias.

Lágrima do sol

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      (fotografia: Loanda Pereira de Moraes) Uma última lágrima do sol cai no espelho do entardecer, trazendo ternura à veneziana que em breve fechará o dia.

Primeiro olhar

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              (fotografia: Samuel Alves Soares) Passado mais de meio século, quando sonho acordado ainda abro a janela da varanda e vejo minha primeira esquina.  E tem sol com vestígios  de lua naquela infância.

Um banho de azul

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          (fotografia: Péricles Purper Thiele) Conforme foi se preparando para dormir, o dia despejou seu banho de azul sobre as costas ancestrais da construção humana.  O resquício de dois watts de sol lamparina o abajur-torre. A lindeza do conjunto azul-lamparinado desanoitece o horizonte dos nossos olhos.

A pureza da vida

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Quatro amigos repartindo as cores do convívio. 

Namorada

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                (fotografia: Samuel Alves Soares) Tateio a tua ausência  com a mesma mão  que em outro poema  tomou a forma do teu seio.  Minha boca tem memória  da tua pele arrepiada, minha alegria conhece a geografia de ti querer.

Outono

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Zair, Samuel e Daniel Alves Soares, (minha mãe, meu primeiro irmão  e meu terceiro irmão) observando, atentamente, o cair do outono: adivinham cada rodopio que uma folha pode emprestar a performance do vento. Conhecem a tosse dos minutos quando o tempo se molha na chuva que entra pela fresta dos sustos. Poupam as palavras do constrangimento  de fazerem às vezes de pregos na casa do ombro que ofertam. Com a sapiência apurada, sabem-se no outono,  apesar do olhar primaveril  com que sempre verão.

Rio Jacuí

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            (fotografia: Felipe José da Rosa) O rio Jacuí bebe em muitas cidades,  mas é de Cachoeira do Sul  que ele sai cambaleante de alegrias  desbarrancadas pelo nosso olhar viajante.

Maçã

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Cheio de outras intenções te ofereço uma maçã.  Desnudas teu olhar de riso e diz:  "Não precisa, sou macieira."

Ouro Preto

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Todo aroma que emana dos jardins das janelas  é um buquê histórico.

Isabela Cambraia dos Santos

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Queli e eu festejando a vida  com a nossa sobrinha Isabela, menina que é calmaria constante,  dia azulado a qualquer hora.  Divertida, alegremente tímida,  despetala qualquer tristeza  com um riso infanto-juvenil inigualável.  Em cada trejeito um ajuste  no cordão umbilical que a mantém  ligada à tia Queli:  duas doçuras de alma leve,  comprometidas em jamais  magoar uma folha que seja,   simbiose de claridade enluarada.

Chegadas

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A boa senhora olhou-se no espelho  e viu a história antiga. Vivia de adivinhar a chegada  de algum filho ou filha. E se Deus permitisse, por intercessão de Santa Ana,  chegaria também algum neto ou neta. Lamentava cada partida, esquartejada em pedaços familiares. Escovou os dentes e os colocou na boca,  pareciam dentes de leite, branquinhos de tão pouco uso. Despediu-se do espelho, procurando-se em outro século. Cumprimentou o dia,  desembrulhando saudades. Seus dedos ainda estavam adormecidos. Eram sempre os últimos a acordarem, cansados das longas jornadas laborais: eram os operários do perdão, contando Ave-Marias no rosário de cabeceira.  Foi até a cozinha e engoliu um pedacinho de pão, hóstia imaginada  com coração puro, acreditando-se perdoada. Não roubava nem matava, só adivinhava chegadas.

Calças curtas

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Vou envelhecendo de infância, em mim a primeira esquina  jamais se aposenta.

Um encontro passageiro

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Ele entrou no ônibus  e sentou ao lado dela. Trocaram cumprimentos,  cada qual ficando com  um bom dia na voz do outro.  A voz dele era grave,  a voz dela uma carícia.  Logo dataram-se:  ela nascida em 1932,  ele nascido em 1934.  No tom pesaroso  o estado civil: viúva, viúvo.  Ele muito tímido,  ela preocupada com  o pouco tempo. O ônibus fez uma curva  de aproximar joelhos,  ela suspirou, ele corou. Nunca, nunca mesmo,  dois joelhos foram  tão jovens ao tocarem-se. Parecia ser o início  do uso humano dos joelhos  como instrumentos  de entrelaçar duas vidas.

Olhares

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Um certo olhar  na casa vazia de botão,  na leveza de um elefante. Um certo olhar no silêncio  dos relógios sem corda,  no rebanho de água  de um grande rio. Um certo olhar   na simplicidade  de um copo de vidro,  na força contida  em um cavalo  que apara a grama. Um incerto olhar  na preá que nunca  se contenta em ficar  do mesmo lado da estrada. Um certo olhar  nas nossas velhices  e mocidades,  na estrada que  traz pra casa. Um incerto olhar  nos cimos, píncaros,  apogeus, zênites, ápices  e demais sinônimos  que as nossas pernas  e imaginações  possam alcançar. Um certo olhar  em ti, em mim, e nos outros  pronomes oblíquos. Um incerto olhar enclausurado em si, ré, mi, sem dó das etiquetas.

Lambreta

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Quando eu tinha seis anos  ganhei de presente de mim mesmo  uma Lambreta invisível.  Ela era branca e vermelha.  Refrigerada à refrigerante,  tinha motor de combustão  das frutas da estação.  Um dia a Lambreta  derrapou no cascalho,  esfolando a carenagem e os joelhos.  Perseguido por um vidro de Mertiolate,  aboletei-me junto com a Lambreta  na letra c da lua crescente.  Ali ficamos, invisíveis e esfolados.  São Mercúrio Cromo  era o padroeiro das crianças  e das Lambretas acidentadas,  pedi por ele, socorrei-me.  Desce, gritou uma voz de homem.  Não desço, disse a Lambreta.  Te desço, disse por último  um chinelo de couro,  intrometido numa história infantil.

Susto

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Uma melancolia atravessava teu peito, barco afogando-se pelo peso da âncora.  O redemoinho da angústia  tragava a sutileza do teu navegar. Eu era um porto inseguro, pobre de continente, miserável de amarras. Sabes bem que meus poemas não terminam em naufrágio: te recolhi num voo de beija-flor.

Namorada

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Lembrei de enviar  este amanhã ser pra ti. Repara bem, minhas mãos  e a primavera nos meus olhos vão junto.

Amigo

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Amigo é um bicho sossegado, feito árvore.  Quer olhar junto, amigo tem janelas  no lugar dos olhos e reparte pão. Reparte fogo e quilômetros também.  Amigo carrega sempre as cores primárias  e uma bilha repleta de água do posso, diretamente do poço.  Nos bolsos um punhado de sal e açúcar.  Amigo desvia rio, espanta leão  e tem sempre um cipó para nos emprestar. Não se recusa a trocar defeitos com a gente e carrega casa feito caracol.  Amigo sabe esbanjar risadas e fingir que o longe é perto.  Conhece nossos ruídos, sabe ativar nosso silêncio.  Amigo é sócio do cotidiano, tem primeiros socorros gravado na testa.

Rumo à foz

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Invento ter visto uma estrela cadente. "Me deseja três vezes", ela diz. Nossas mãos se multiplicam, as roupas tombam com prazer. O córrego que alimenta as correntezas do querer vai cantarolando suas águas  rumo à foz do amor perene.

Ternura acesa

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Queli, sossego risonho, começo do dia, varanda. Tua delicadeza germina o linho da ternura acesa.  Tua filosofia multiplica os caminhos e as buscas. Sol de quintal, água pura, seara dos meus sonhos.

Quando

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Quando eu morrer, de morte atestada, quero que lembrem que eu gostava do tempo. Vagaroso e sonoro que nem calhambeque, vaporoso e encasacado que nem noite de julho.  Rápido no galope sem rédeas do relâmpago, urgente quando se tem saudade. Que digam em minha homenagem: foi embora, era temporário. 

Curva do silêncio

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              (fotografia: Samuel Alves Soares) O barco de sol navega na curva do silêncio.  Na sua proa o norte é a própria vida, um apanhado de escolhas, recusas, vento encanado no coração  que impulsiona cada gesto.          

Namorada

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Nas gavetas do nosso encontro,  entre adjetivos e verbos,  exclamações sussurradas.  Nosso olhar vira um mar  docemente revolto.  O aroma das tuas mãos  acende o lume do caminho.  Meu corpo todo é um só carinho  buscando ternamente a gruta.

Descaminhos

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O riso era o lugar das coisas só nossas, nos perdíamos longamente, desfazendo caminhos.

Namorada

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Tenho por ti as labaredas mais juvenis, dessas que queimam até à velhice. 

Expectativas

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                      (fotografia: Jane Ballem) As espigas de dia azul brotam na horta das nossas expectativas.  O barco que leva também pode trazer  os beijos que não foram entregues, as palavras sentadas no silêncio. 

Formiguinhas

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Desde muito pequeno,  antes da completude dos dentes de leite,  o guri era povoado de formiguinhas.  Bastava deixar o pé erguido ou sentar com uma perna dobrada embaixo da outra  para que o formigueiro  se espalhasse, numa correria rápida, dentro do pé dele. Perdia a força da atividade, ficando só com a força  do riso nestas horas. Eram coceguentas as danadinhas. O açúcar do sangue dele  que atraía as formiguinhas, um concentradinho de guloseimas pra gula delas. Quando ficava descontente  com aquela azáfama toda dentro do pé, perdendo até a força do riso, ele colocava um punhado de sal embaixo da língua pra se livrar da doçura formigante.

Delicadezas

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Teus ombros derrubam minhas mãos até a sacada dos teus seios. Tua cintura é areia movediça, corda ausente, socorro impossível. 

Memorial

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Nem tudo coube na mala da despedida. Ficou o teu caminhar de amanhecer  cada janela e vão da casa para arejar os aromas do amor. Ficou o rio encanado  que navegava teu corpo, redemoinho em que eu  repetia meu mergulhar. Ficaram os verbos que  inventavas com as mãos e os adjetivos que são teus olhos. Os ecos também estão aqui neste memorial com paredes de pele,  telhado de vidro, piso irregular,  onde a saudade é a zeladora.

Namorada

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Faz bem a minha vida quando te acendo na penumbra e arredondo minhas mãos  nas tuas curvas de abismo.

Dicionário

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Não vou te presentear com um dicionário. Seria o fim da possibilidade de dar a ti, aos poucos, pequenos buquês de palavras, uma quimera, um barco partido. Não te darei todo o cardume, quero antes te iludir com o anzol, fingir ser rede ou isca. Pescaremos juntos, a quatro mãos, famintos de cada espécie de palavras,  no redemoinho, na foz de uma catarata, nas reentrâncias da palavra silêncio.

Pequena biografia

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                   (fotografia: Ruben Prass) Ainda existe a casa em que nasci. Apequena-se grandiosamente  em mim, lugar de imaginações. Está coberta pelas mesmas telhas que me protegeram do sol e da chuva, casamento de viúva, objetos de dizer não ao calor,  à umidade, à curiosidade dos astronautas. As venezianas também são as mesmas  que me camuflaram o olhar  das coisas da rua e dos amores  que não me sabiam. As esquadrias das janelas continuam escorando seus cotovelos de mirante do cotidiano.  Ainda sinto a respiração das paredes, nem robustas, nem frágeis, apenas possíveis, corpo da fortaleza de sermos uns dos outros. As portas não cansaram de serem as mesmas, entreabertas, sem nunca fraquejar ou se tornarem indiferentes. Ainda existe a casa que  me alimentou de horizontes, matou a minha sede  num copo de cachoeira, me vestiu de grandeza ínfima e, de tão pequena, só poderia  ser casa de br...

Sussurro de esperança

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O amor é uma constelação de gestos delicados, um sussurro de esperança e sossego. Um apalpar do silêncio romântico,  brisa de sol arrepiando a pele. É banco de praça com dois lugares somente, chuva de risos correndo na calçada.  Primavera em qualquer época,  oferece água fresca na concha das mãos. Vê de olhos fechados, abraça a alegria. Inventa o luar, bebe do mesmo encanto. Nasce diariamente de peito aberto e morre de saudade a cada instante. 

Buquês

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Foi embaixo da parreira de flores  do nosso pequeno pátio  que eu fiz germinar  um canteiro de lembranças. Nunca mais parei de arranjar  buquês com os acontecidos.

Namorada

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Gosto de deitar no teu riso e adormecer meus cansaços. Fazer escorregar teu vestido pela cascata que é teu corpo, refrescando minhas mãos  na pureza do teu fogo. Beijar, beijar em detalhes  e colher a primavera  de cada suspiro teu.

Sérgio Lezama

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                          (poeta cachoeirense) Estão libertas da prisão dos bolsos  tuas mãos que faziam infinitos. Neste milênio, em que não mais  sangras das solidões imensas, teus versos nos chegam às algibeiras líricas.  Não estás mais sozinho, uma mulher-violão  quer tocar teu soneto.

Inocência

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A inocência brinca com o novelo da vida, desfiando a curiosidade  no colo da alegria. 

Homem-abajur

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Meu amigo Flávio Reis Pereira  ilumina a cabeceira da vida de quem tem a sorte de conviver com ele. Luz de fonte renovável, traz claridade aos enganos informáticos que nos assolam, traz bonança sem tempestade.  Sem watts de potência, apenas a força de ser justo e dar o melhor de si em cada gesto.

Ouro Preto

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Os séculos se rejuvenescem conforme o nosso olhar lhes desvenda a alma.

Cigarro poético

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Mário Quintana fumava o silêncio, a cada tragada um verso único,  enorme, completo e universal.

Pequena elevação

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Foi numa das quatro estações do ano, não sei bem qual, sei que comi frutas, vi buquês, senti um ventinho frio e tinha um calor lúdico no peito. Foi num amanhecer, depois do almoço, ou à tardinha, que me despedi rindo do que eu já não era ou nunca fui. Meu interesse estava agora na geografia dos caminhos que margeiam rios e depois sobem quase quietos ao topo. Não procuro nada, nem fujo de tudo, apenas palmilho e me divirto na imensidão dos pronomes retos. Novelo e desnovelo um fiozinho de ontem no carretel tosco que pouco cabe no bolso.

Enlace

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O amor se mostra por essa constelação de beijos, vasta colcha de acariciar. Sabe se esconder no biombo dos compromissos diários, no expediente de abarrotar os silos e cicatrizar a terra. O amor engorda de ausência, calórica espera, rio represado, desassossego no peito. Não sabe da pressa do tempo, do amanhã ferido, da rua vazia. Foge de volta, correio de pombos, enlace de ausência e retorno.

Em Porto Alegre

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O porto alegra-se com a frota de nuvens  ancorada no cais do horizonte.  É uma promessa de quase frescor  diante da fornalha acesa na âncora  dos últimos dias dos navios encalhados.

Namorada

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Outra vez tua boca acolheu meu beijo despudorado, dando ímpeto aos meus olhos. Nestes nossos momentos  de portas e janelas fechadas a vida se abre em possibilidades: teus seios tomam a forma das minhas mãos, teus desejos atiçam as labaredas que ainda tenho em cada canto da pele e o cotidiano se encanta por nós.

Tempo circular

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A estação eterna  é a esquina da infância, onde o tempo é circular e as lâmpadas são vaga-lumes. 

Minha mãe

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A guriazinha tem 90 anos,  5 meses e três semanas de idade. Bebe o sumo da vida em goles largos, olhando muito e querendo ouvir tudo. Leoa, sabe rir na savana que é a vida, tendo sempre o coração na palma da mão. 

Andando por um pedaço de mundo

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Bebeu nas palmas das mãos,  represando um pedaço  do rio dentro de si.  Apascentou as ovelhas,  de modo figurado,  apenas pela beleza do verbo.  Cogitou sobre a palavra apenas,  tantas vezes usada  na narrativa andarilha: há penas.  Cogitou sobre outras tantas palavras.  Passarinho, o importante era amanhãser,  verbo da segunda conjugação.
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                 (fotografia: Jussara Smaniotto) Fico enluarado com facilidade,  sempre reencantado  pelo abajur público  que a força da gravidade  jamais derruba. Uma cortina de nuvens  se abre para mostrar a suavidade  do lume sem fronteiras caindo  na nudez do nosso sentimento:  o instante pede um beijo na boca.