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Mostrando postagens de dezembro, 2024

Sino

Foi meu tio-avô Lotário quem puxou o sino da igreja Santo Antônio, em Cachoeira do Sul, até o alto da torre, tendo o ombro como roldana. Era um trabalho para quem não  juntava letras, mas tinha gosto em ler sorrisos de satisfação.  Idoso, já com a roldana emperrada, ele sentia um descompasso  no peito quando o sino tocava. Pedia, numa tosse inventada, uma consulta com algum relojoeiro do coração para ajustar  seus ponteiros do sentimento.

João Francisco Machado

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Apelidado de Chico Branco, era o nosso "Seu Chico",  criatura bondosa e técnico  do nosso time de futebol,  Manchester, lá em Cachoeira.  Entusiasta da aviação, morava,  por uma feliz coincidência, na rua Santos Dumont. Transmitia firmeza e ética  para a nossa infância e era engraçado ao natural. Estamos todos saudosos e somos muitos. Um homem que marca de maneira positiva o início  da vida de tanta gente merece  um lugar na área técnica lá do céu. Seu Chico ajudou a alicerçar o futuro da gurizada da vizinhança, deixou para nós os baús  da integridade e da lisura. Certamente já está trocando opiniões  com o pessoal do "Rolo Compressor" do time do Inter que ele tanto gostava. Seu Chico, patrimônio da nossa infância!

Ao raiar da noite

Eu te amo de modo sério, com firma reconhecida, véu, grinalda, testemunhas. O bom mesmo é quando anoitece o expediente  e os sapatos da formalidade ficam do lado de fora da casa. Nesta hora eu te amo com todas as minhas bocas, te beijo com todas as minhas mãos. Sem testemunhas, véu rasgado, grinalda e calcinha no chão. 

O velho Amor

Santo Antônio é o padroeiro do bairro que abrigava o velho Amor e seus tantos bichos. Amor era um idoso amável, de fala mansa e muita. Carregava em grandes latões de azeite a "lavagem", comida para engordar a sua criação. Criação que por vezes desfilava pelas ruas do bairro, me pergunto agora, por qual motivo? Por que as vacas, cavalos, porcos,  galinhas, cachorros, cabras, percorriam em procissão  os nossos caminhos de ser e estar? Eram animais tão dóceis quanto o dono. Adestrados em passear, estacionavam  seus cascos, penas, relinchos, cacarejos, rabos, crinas, guampas, latidos, mugidos, defronte ao armazém do Seu Henrique, onde o Amor pedia um trago. Na cabeça da vaca-guia  havia uma colmeia,  com muito mel e pouco zumbido. Amor gostava de espalhar a sua doçura, mesmo sabendo dos perigos das ferroadas.

Outra certidão de nascimento

Em termos emocionais,  de gosto, de saudades inventadas, nasci no ano de 1915, na urbanidade um bocado  rural de Cachoeira do Sul.  Tenho velocidade de calhambeque  na subida e vagão de trem é uma  das casas ambulantes  mais interessantes  que consigo imaginar.   Trocar mensagens por cartas,  utilizando o "aplicativo" carteiro,  é o avesso mais brilhante  da pressa que devora o tempo.  Eu gosto do tempo  que se move em carroça. 

Luiz Clery Machado

 (Janeiro de 2021) Luiz Clery Pertile Futebol Clube, uma instituição de 90 anos. Um homem cuja vida é um exemplo da simbiose  entre o campo de futebol, a casamata e a arquibancada. Coletivo, solidário, alma pura e farta. Marido de uma única e eterna namorada,  pai, avô, tio, sogro, lembrança generosa que trago no bolso da infância.  Atacante que dribla o tempo  e conduz o time rumo à vitória que é a arte de viver sossegado. Homem-instituição, olheiro, estádio, gol de placa, pilar da honestidade, placar sempre favorável à simplicidade, ao respeito, à esportividade. Goleador que ergue o goleiro  adversário caído, abraço festivo, comemoração vermelha, campeão da gentileza. Homem-família, finalista, colecionador de troféus, dirigente, maqueiro, gandula, massagista, conselheiro, torcedor. Rede que representa o objetivo alcançado, homem de categoria desde  a base até o veterano,  que é o lugar de quem sabe muito.  Luiz Clery, Pertile em cada gesto,...

Namorada

Teus olhos iniciam o terremoto  na ilha que construímos a quatro mãos, derrubando a roupa do varal das certezas.

Bebendo a lua

Meu tio-avô Lotário teve a ideia  de engarrafar luares de poças d'água para vendê-los aos apaixonados...

Namorada

Tua mão caiu no meu peito, adormecida de intimidade.  Outra vez fizeste parte do  meu batimento cardíaco. 

Namorada

Gosto quando embrulhas o silêncio colocando a mão no meu ombro. Sei tuas curvas com olhos eretos, sinto a seda do teu púbis, subo ao cume dos teus seios, caindo no abismo que é teu beijo. E nos dizemos, pura confidência, com a verdade da hora: é pra sempre.

Namorada

Era um poema de apenas um cômodo  e dentro dele cabia apenas o sorriso dos teus olhos.

Passeando em ti

Começo pelo pátio que são teus pés, metragem de jardins, prenúncio de floração.  Quero ouvir se rangem as dobradiças  dos teus joelhos e cotovelos. Teu pescoço pede um colar de beijos meus, com contas do meu querer joalheiro. Termino no teu apartamento minúsculo, onde cabem apenas os meus pertences.

Dados pessoais

NOME: sob sigilo PROFISSÃO: pastor de nuvens FILIAÇÃO: verbo e esquina NACIONALIDADE: lunático   COR DOS OLHOS: infantis ALTURA: um punhadinho REPRODUÇÃO: em versos LOCOMOÇÃO: sem rimas ESTADO CIVIL: apaixonado GRAU DE INSTRUÇÃO: curioso incompleto  

Hora das comunicações

Raul pede para avisar a Marina lá no quintal da saudade: "Não chegarei no ônibus do meio-dia, nem hoje nem nos próximos dias. A estrada só está vindo, não vai. Comprei o tecido que tu pediu, é da cor azul, vai caber na tua lindeza. Vou aguçar teu apetite:  levarei uma quantidade exagerada do chocolate que te dá água na boca. Tô impregnado de ti, Marina. Beijos e até quando eu chegar!"

Era uma vez

Marina e Raul viviam em casas separadas  por outros relacionamentos.  Sabiam-se apenas por mãos  fugazes e assustadas.  Ela tinha ímpeto, ele fazia buquês.  Ele ofertava risos, ela esbanjava gargalhadas.  Sempre que podiam se encontravam  na casa mútua do olhar:  ali é que estava a maior das intimidades.

Dobra de vestido

O amor não chega já sendo árvore, afinal árvore não anda, nem voa. O amor chega sendo pólen, trazido pelo vento, por uma dobra de vestido, por um te beijo-flor.

Estrofe

(para a Queli) Toda estrofe agora bebe o rio dos teus olhos. Tens a magia da semeadura: tua palavra mais ínfima vira árvore de passarinhos.

Namorada

Tenho o coração ocupado por ti, namorada. Sabes bem destrancar os ferrolhos  das minhas janelas e organizar  os cômodos do que penso em atropelo. Aos olhos das minhas mãos  não bastam ver tua cintura, preciso tocar tua curva que ajuda a modelar o que sou. Sabes bem que te namorar  é um latifúndio que produz horizontes variados, alimento para a minha imaginação. Tenho o coração alojado em ti, namorada.  Sabes bem trancar os incômodos  das minhas janelas anoitecidas, um latifúndio de breu que requer  as sementes de luz de quando me ajudas a editar minha vida.

Atraso

Nasci profissionalmente atrasado: queria ter sido foguista de Maria-Fumaça. Soprar um braseiro e olhar pela janela o comboio que serpenteia meu sonho rebocando todas as gares. E quando a locomotiva tossisse eu ministraria bálsamo alemão  na garganta dela.

Mangas de camisa

Os dicionários me chamam de ambiesquerdo. É um modo rebuscado de dizer  que sou atrapalhado com as mãos. Conforme os anos foram passando a inabilidade manual pareceu  estabilizar-se ao menos, e depois de tanta tentativa e erro consigo descascar uma laranja.  O que parece não ter cura  é a minha inaptidão para vestir  uma roupa de mangas compridas  sobre outra roupa de mangas compridas sem que as mangas da roupa de baixo  fiquem encolhidas, empapuçadas.              . Sei perfeitamente a teoria:  mantém-se a ponta da manga  da roupa de baixo presa na mão do braço que se está vestindo  e com a outra mão se puxa a roupa de cima. É uma bela teoria!  Minha mãe já a dizia para mim  no final dos anos sessenta.

Mão

Ontem, nunca faço nada hoje, fiquei olhando a mão do meu pai pousada na mesa feito um pássaro. Ela ameaçava voar quando explicava a possível curvatura do horizonte. Em passos lentos ia recolhendo os farelos de pão, biscoito e cuca, até que alçou voo para pontuar alguns ditados e suas verdades.

Buquês

Foi embaixo da parreira de flores  do nosso pequeno pátio  (eu já sobrevoava futuros) que eu fiz germinar  um canteiro de lembranças. Nunca mais parei de arranjar  buquês com os acontecidos.

Para o Henrique, meu filho

O escritor tem se alimentado de dicionário. Vitaminas, proteínas, outras tantas palavras sem rimas e está nutrido o artesão. Esculpe a prosa musical, ferindo de asas a árvore e a pedra. Delicia a barriga de cada barco com a água migrante que hidrata o horizonte. E compõe anversos na intimidade de cada verso. Faz ponta na flecha envenenada, mirando o alvo das hipocrisias. E tira o musgo do enxó, instrumento bem útil para um texto não-industrializado. O artesão desbasta as noites, tirando lascas da escuridão, sua luz maior, nas entrelinhas do compor.

Para o Guilherme, meu filho caçula

Filho, te amo com todas  as minhas fraquezas e com um bocado da força  que a palavra paternidade  grava nos meus afazeres e sustos. Conforme eu adormeça hoje à noite peço que tu me leve até a cama, me conte uma história  e me dê um beijo protetor na testa.

Pedaço de pôr do sol

Colocou um pedaço do sol em um balde de azul do céu: nasceu um verde com viço, na tonalidade em que pulava o muro da infância,  cor a ser amadurecida pela saudade.

Útero

(para meus filhos, Henrique e Guilherme) Quando passei dos trinta anos de idade, contra toda lógica anatômica, um útero se desenvolveu em mim: lugar especial, cômodo amoroso, armazém cromossômico, pracinha de ternura paterna.

Instante

Tuas mãos têm vestígios de sol, enquanto tua cintura, sempre ela, enlaça o instante e paralisa o tempo. 

Cachoeira outra vez

(série: Cachoeira, no sul da minha infância) Novamente chego de trem à cidade  onde comecei, na primeira ferrovia que me encantou o olhar de viajar. Não há gare onde desembarcar, sequer há trilhos para a Maria fumacear. No leito que já foi via, buraco atualmente, brotaram casas, fracas de forças, de esquadro torto, com gente morando nelas. Coloco fogo na caldeira do lirismo: que de mim partam versos pontiagudos, a dilacerar o modismo do cada um por si.

Colheita

Quando olhei pela janela do poema tu estavas colhendo versos  na parreira das estrofes. Reparei que as tuas mãos  eram de gente trabalhadora, gente que labuta na vida e nos poemas. Levavas, na anca das pronúncias, um cesto de metáforas. 

Estatuto para Thiago de Mello

(30/03/1926 - 14/01/2022) Artigo único - Fica decretado  que o poeta Thiago de Mello  está imortalizado  nas mãos que trabalham,  nos olhos que esperançam,  no rio que jamais cansa, no horizonte desenhado pela asa, no reinício diário do abraço que conforta, na impura arte que é viver. 

Caminho

Não te darei receitas, poções mágicas, placas indicativas. Sugiro apenas que leves na mochila algum farelo de sol, a lua crescente, a lágrima da saudade  e tua inesquecível primeira esquina. 

Glicose

Ele beijou a calçada, acariciando o corpo  horizontal dela, prometendo fidelidade. Vinha do bar, liquefeito por inteiro. Discreta, a calçada  se manteve em silêncio.  Um cachorro andarilho, desses que já viram o mundo, sofreram e distribuíram doçura, farejou tristeza naquele aroma de água que boi não bebe. Aplicou duas lambidas  de glicose no enamorado que,  imitativo, já estava quadrúpede agora.

A bica da Ernesto Barros

Minhas mãos em concha  permitem que eu beba  em pequenos goles a lembrança  da bica lá em Cachoeira do Sul.  Relembro a água que nutria nossos baldes, panelas e canecas.  Minha sede de infância fica saciada com esta memória líquida  que enche a cacimba dos meus olhos.

Luar incansável

Solta na imensidão do tempo a luminária incansável  leva sua luz suave à cabeceira do poema.

Cachoeira, no sul da minha infância

O trem, que já não parte mais de lá, ainda consegue aguar meus olhos. 

Palavra

Cada palavra agora é um sol ou o frescor da água repartida. Cada palavra agora é bálsamo, aglomeração de gente em festa. E no veludo verde da grama fazemos um piquenique  com as guloseimas da ternura.

Minha gente

Fica decidido assim:  iremos todos juntos.  A partir de agora ficam  banidas todas as réguas, todas as medidas que hierarquizam. Iremos de mãos dadas ou soltas, repartindo caminho e horizontes. Rio, e que não seja com a água  dos olhos dos outros. Vale abraçar árvores e espiar ninhos, vale inspirar verde e expirar azul. Iremos todos juntos na carroça  da primeira pessoa do plural, com os olhares entrelaçados. Nas mochilas, fartura de bondade e uma linha pra enlaçar a lua. Que cada um traga seu sol!

Reciprocidade

Minhas mãos são generosas na tua geografia noturna, minhas palavras não saem  do aconchego do teu pátio.  Trocar olhares contigo é selar novamente a reciprocidade, é estacionar meu barco  no colo da tua cascata.

Lembrar

É bom esquecer do sapato que nos aperta os calos, da correnteza que levou  nossos amores, do nosso traje domingueiro que ficou roto. Agora, o bom mesmo é ir lembrando devagarinho, num jeito de construir ninho, do último beijo, de um olhar que nos disse um punhado de doçuras, da posse da chave  do dia de ontem, de um abraço que selou novamente o mais importante dos contratos.

Permuta

Cada um de nós colocou  a mão em concha  e entregou para os outros  um punhado do olhar que não julga.

Enovelados

A luz vacila entre as tuas coxas, deixando alguma penumbra  alimentar minha imaginação.  Com um pequeno tremor teu corpo  passeia pelas minhas mãos.

Fui sabendo

Fui sabendo de ti e de mim enquanto nos beijávamos. Porque o beijo é um  tagarela silencioso que ouve os olhos.

Não medalhistas

Meu interesse é reunir aqueles alunos  que nunca tiraram notas altas. Os que não ganharam medalhas, os que não eram populares, os reprovados nos vestibulares. Aqueles que ninguém achava bonitos, que nunca se destacaram, desinteressantes num primeiro olhar. Cotidianos, de nomes desconhecidos.  Desajeitados para dizerem-se, apaixonados sem reciprocidade, titubeantes nos menores gestos. Quero vê-los focar em não competir, esnobar pódios, sem títulos, à margem do sucesso reconhecido. Enumerar a ausência de vitórias, desconhecer grandes feitos. Nos bastidores dos grandes eventos, grandemente comuns, longe das vitrines, pisando suavemente nos próprios horizontes. 

Diversão

O divertido mesmo é colher  butiá em bergamoteira, pendurar adjetivos no varal da infância, tomar sopa com garfo, enxertar a vida plantando bananeira e batata, compotando-se das palavras mais doces.

Rita Lee

Levei um susto quando Lee que a Rita havia embarcado num trem para as estrelas.  Logo me tranquilizei ao lembrar que certamente o Cazuza estará  na última estação esperando  a chegada da sua grande amiga. 

Tua cintura

Tua cintura enlaça o lume  das minhas mãos, fraquejando a despedida que insiste em não acontecer. 

Fruto de luz

O sol é um fruto de luz brotando na gávea do coqueiro.  Quem degusta seus gomos fica alimentado de reinício e reparte calor com a concha das mãos. 

Atraversar

Acaso não fosse essa esperança  na travessia, esse inventar-me luz em meio às sombras, confesso que apenas  quebraria as vidraças da escuridão, recolhendo-me ao refúgio  do estômago satisfeito. Não diria com o olhar duro: "Na minha terra há sarjetas onde  cantam os bêbados mais tristes. Há penúria, medo e um eclipse de longa duração." Se não fosse esse olhar  eternamente infantil de tudo espiar, esse desejo de atraversar  túneis, rochas, solidões, recolheria meus brinquedos e faria da indiferença minha casa de lazer.

Onde houver luz

Ah, meu amor, onde houver luz que eu leve a falta de energia elétrica, pois tenho umas vontades capazes de ruborizar até as solas dos teus pés.

Pisei na lua

Era o mês frio, de 1969, julho, de Cachoeira. Vento sul, bambas novos, peito vickvaporubizado. Tosse, roupa seca, bolachas maria, guaraná, mãe, mais tosse. Um céu sem goteiras,  rua descalça, muitas poças d'água. O reflexo trazendo o céu até o chão, dei um grande passo para a minha pequena humanidade febril: pisei na lua cheia.

Soluço

O poema, trêmulo, soluça um pedaço de verso após beber um copo de sílabas. 

Trabalho manual

Um poema é feito em casa, com a matéria abundante  da tristeza, angústia,  medo, sonho, saudade, sossego, coragem, alegria. É trabalho manual, com alicerces mínimos, acabamento em olhares e sem valor venal.

Pálida

Pálida é a maneira  doce e proparoxítona da lua não ser 

Olhos de aurora

Meu tio-avô Lotário fumava o silêncio, tragando uma imensidão de campos, montado num banquinho quadrúpede. Vestia uma bombacha larga remendada de esperanças,  uma camisa desdentada de alguns botões,  um lenço furta-cor, feito de tecido bíblico.  Na guaiaca apenas moedas  de tilintar miúdo.  Nas unhas dos pés léguas  e léguas de terra cultivada. Nas mãos uma foice imaginária, pra cortar o inço da vida. Não sorvia amarguras,  lambendo-se em rapaduras. Na longevidade dos olhos  uns horizontes de aurora.

A engenharia dos amigos

A esquina da rua Ernesto Barros  com a rua Juvêncio Soares, em Cachoeira do Sul, foi feita pelos amigos, cavando em si mesmos o alicerce dos reencontros.  Cada um ainda traz no peito a pá de felicidade, algum temor, o tatear infantil, a certeza que ingenuamente se acha adulta, com que contribuiu para alimentar o verbo Conviver. Conviver cresceu forte, de múltiplas habilidades e gostos, tem na engenharia do lembrar  sua profissão que lhe dá sustento. É abastado e generoso, verbo incansável para sempre.

Namorada

"Sou tua namorada", repetes de dentro da tua blusa rosa sem espinhos, na hora cálida em que nos comunicamos por mensagens de olhos e saudades. Uma folha de posse despenca da árvore  que carregas na vastidão do peito. Tu deixas que ela caia para o porão  das quinquilharias sem préstimo.  Neste instante um bando de passarinhos  redesenha as linhas do horizonte num voo banhado de azul e renovação. 

Pirataria

Arquipélago-me com  outras crianças numa pirataria  com navios de vento: terra à vista! embora exploremos em prestações.   Robson Alves Soares

Sonho desabotoado

Sonhei que o botão da tua blusa desabotoava teu seio na minha mão.

Um suspiro teu

A noite amadureceu, mostrando a sua polpa de lua. Bebo-te com os olhos, vem daí minha embriaguez. Nas minhas mãos nasce um suspiro teu.

Um bocado de doce

De tanto correr para tentar adocicar o mar o rio Jacuí ganhou o apelido de confeiteiro. Por suas águas navega a glicose que sobrou  da moedura dos nossos encontros.  Nascemos, rio e moenda, para açucarar o sal dos nossos dias.

O sorriso da minha vó

Minha vó era faceira do primeiro ao quinto, ria até de gota d´água. O seu sorriso era o sinal da chegada de coisas boas. Amiga dos bichos,  ela tinha um cachorro já idoso,  quase 40 anos, que surdo,  não mais atendia  pelo nome de  batismo,  que era Pórvora. Pórvora só tomava sopa, desdentado que nem recém nascido. Vivia pigarreando seus latidos, abandonado até pelas pulgas. Nas ausências da minha mãe eu ficava com a minha vó, desaprendendo a história escrita e aprendendo muito da história oral. Um dia minha vó esqueceu os dentes na pia do banheiro. Eu não procurava encrenca, fazer dano, desrespeitar idoso, mas não me contive: peguei os dentes da minha vó e pus na boca do Pórvora. Serviu direitinho, rejuvenescendo o velho cachorro, lhe dando sonhos de mastigar carne e roer osso. Meu tio Lotário viu o Pórvora com os dentes novos e elogiou de pronto: "Tá muito bonito!  E tem o sorriso da dona."

Botão

Um botão de melancolia  sai da casa confortável  rumo à subida íngreme  da costura do dia a dia.

Diabruras

Com o passar dos anos é inevitável  que passemos a conviver,  quase diariamente, com a criança que fomos. Temos seriedades e prazos a cumprir, mas a criança que fomos nos puxa  pela manga do paletó e quer brincar. Não posso agora, é a resposta padrão.  Nos concentramos novamente  na burocracia do dia, expediente infinito. O rio do tempo corre em direção a foz do sumiço.  Nos erguemos para tomar um café, fechar a janela da infância, chavear a porta da pracinha, e levamos um tombo, amarrados que foram, um no outro, os nossos cadarços. 

Procuro teu quintal

Locomotivo-me agarrado  a uma chaleira com água em ebulição e evaporo-me na intenção de chover, amanhã ou depois, na tua horta.

Fertilidade

Minha mãe tem 90 anos e não há dia, seja de sol, chuva, dúvidas, esperanças, em que ela não engravide novamente, esperando os sete filhos.

A casa abotoada da solidão

Na memória visual  o perfume dela era uma blusa na fronteira tênue  entre o verde e o azul, onde o primeiro botão  nunca estava abotoado. Causava tanto alvoroço  nos hormônios dele, que ele seria capaz  de abandonar para sempre  a casa abotoada da solidão. 

Imunidade

Não sei se foi o leite materno, a sorte, a casa pequena,  os cromossomos sonhadores, o fato é que sou imune às pessoas de baixa humanidade.

Retorno

Não pronuncia o meu nome, há de se ter cuidado quando a distância é grande  e os dias prometem apenas  gotejar o tempo do retorno. 

A pequena casa

As janelas verdes da pequena casa amadureceram na estufa  que era a tulha de arroz. Saboreada a paisagem, feito gomos da fruta mais doce, restaram as cascas da pátina do tempo, recado incansável de pertencimento.

Estado civil

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Era por puro deleite que eu dizia tuas ancas com as mãos.  Meu estado civil estava registrado  no cartório dos grandes desejos. 

Chá de aurora

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Ficava entardecida  logo ao amanhecer. Solução caseira: chá de aurora  em pequenos goles. 

Surgiste

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  (para a Queli) Surgiste, singular e descalça, numa terra de muitos calçados. Trazias o orvalho sob os pés  e foi a nudez deles o meu primeiro encanto. Choveram todos os baldes  e bacias de alumínio do céu. Ruborizado diante da nudez dos teus pés,  ofereci minhas galochas de outras chuvas. Ah, o riso de arco-íris com que fizeste barquinhos da minha oferta. 

Provisões de beijos

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Quando as bocas só querem beijar  os ruídos vão emudecendo, desnecessários.  Fechamos as portas juntos, nos abrindo em janelas, com as nossas provisões de beijos, pequenas chaves. Peneiramos a penumbra, o restinho de claridade vai adubar as mudas de abajur.  

Pétala de fogo

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Ternura por ti

Tenho a vastidão do teu abraço  no quarto da minha memória recente. No teu aconchego cabem todas as minhas mãos e o cerne do meu querer.  Meu ímpeto é pernoitar nos teus olhos e amanhecer de ternura por ti.

Cesto poético

Este poema começa na infância e vai percorrendo a vida. Dois versos espiam ao redor da tarde e num único impulso pulam o muro do pátio silencioso e frutífero.  Com a pressa que o medo acelera colhem sílabas e metáforas maduras. Enchem o cesto poético com a abundância da estação.  De volta à rua, na segurança da prosa, soltam gargalhadas de estrofes. 

Meu coração

Empresto meu coração sem fronteiras, ninho do vento, casulo do sol, água na concha das mãos, casa na árvore da infância. 

Biografia de final de ano

Em termos de formação o máximo que consegui  foi pós-graduar-me em Saudade.  Diariamente conquisto novas dúvidas,  pagando em prestações de certezas.  Somando os meus bens verifico  que tenho pouco mais de mil amigos: é uma fortuna que quero repartir em vida. Não recuso fazer escambo com ideias,  apenas exijo que não tentem me iludir  com espelhos ou colares de vidro.  Acredito piamente que a Terra  gira em torno do sol e jamais neguei  que sou satélite da lua.  Em termos profissionais sou defensor  das aposentadorias precoces.  Na literatura me interesso  pelo escrito que interroga,  no cinema só me agradam  as pequenas velocidades.  Gosto muito dos dias de chuva  e de tudo que é autolimpante.  Para vestir uma mulher basta  uma echarpe, de qualquer cor.  Meu estado civil continua sendo apaixonado  e sou militante dos beijos na boca. 

Filiação

É preciso repetir outra  e mais outra vez: sou filho da esquina  da rua Ernesto Barros  com a rua Juvêncio Soares  em Cachoeira do Sul-RS.  É ali que as pessoas ainda passam, desamarrotando o tecido que envolve o cerne do que sou.

Telhado

(para a Queli, minha casa) Quando vejo teu telhado  entre o casario multiforme  apresso o passo do meu sorriso de trem chegando. Carrego um cesto de primavera  amadurecida para gotejar pétalas  nas tuas calhas e quinas. O bumbo em meu peito só silencia ao contato do violão que é tua fachada. A variedade das tuas janelas inventa o pátio em que brinco de viver.

Entardecer

No anzol uma isca de manhã na tentativa de pescar um punhado do sol que já se despede.

Infância lá em Cachoeira

A lua feito um abajur, bergamotas repartidas, a geada cobrindo o campinho.  Bicicletar com vento no rosto, férias escolares em abundância, pomares coletivos e furtivos. Chuva morna caindo da calha, a busca incansável pelo gol, pão d'água amornando a mão. Esquinar conversas e risos, o tilintar das bolinhas de gude, o Rex protegendo e dando aulas gratuitas de fidelidade. 

Arrepio

Teus olhos têm a cor da casa, acolhem meu outono  de portas abertas, enquanto no pátio  a árvore do silêncio  produz seus frutos. Deito sem pressa nos teus beijos que anoitecem distâncias, amanheço minhas mãos  na estrada de te passear. Todo gesto é começo, no arrepio de te tocar.

Partida e chegada

O trem partiu o coração de quem ficou, a sensibilidade recebeu um dormente no peito vazio e silencioso. Na estação de destino brotou  um pequeno jardim de esperanças.

Água da cachoeira do sul

Quando bebo a água  da cachoeira do sul sei que o dia terminará  com o recado da bonança. 

Chuva de peixes

Tio Lotário gostava  quando chovia peixes.  Pegava um balde grande  e saía a recolher a abundância  de lambaris e traíras nas poças d'água.  Só recolhia lambaris com mais de 2 quilos: "filhote a gente deixa pra criar futuro".

Um homem forte

Era um homem fortemente sensível: carregava o pôr do sol  no gesto de abraçar  o mundo com carinho. 

A caminho de Cachoeira do Sul

Minha infância sempre encontra o caminho de volta. Mais adiante, depois da curva, sobre a inquietude que é água, estará a ponte do Fandango  dando acesso ao meu primeiro mundo. 

Namorada

Ah, namorada, tenho a pretensão  de que causo um oco  na morada do teu peito  quando estamos distantes. Imagino que a minha ausência  te cause um acesso de suspiros e que a lembrança da minha voz dizendo "te quero" cause um alvoroço  nas janelas dos teus ouvidos. Imagino ainda que as tuas mãos  ficam aflitas por não poderem  me alcançar o pólen do teu carinho, na intenção sempre renovada  de florescer nosso querer mútuo.

Filhote

  Descobriu-se cachorro  depois de tanto perseguir  e conseguir morder o próprio rabo.  Ganiu e, irritado com o apêndice, latiu. Começou aí uma nova fase da sua vida: rosnava ou latia ou apenas olhava,  conforme a necessidade de demonstrar  para os gatos da vizinhança,  para a bola, para os carrinhos  de brinquedo das crianças,  para o balde, para as vassouras,  para algum osso, para as borboletas,  quem era o macho alfa daquele  espaço de convívio.  Quis demarcar território na cozinha,  tentativa e erro,  teve de retirar-se às pressas,  derrapando no piso liso,  ainda com uma das patas erguida  e o rabo fugindo junto.  Ganhou uma camisetinha  que lhe apertava as ancas.  Não, não e não!   Era livre no uso da sua nudez  e continuaria assim.  Esfarrapou-se com umas  tantas mordidas e rosnados,  despindo-se com dificuldade: não serviria de motivo de riso...

Luiz Clery Machado

92 ANOS (28/01/2024) A bondade e a doçura fizeram casa neste homem que melhora o mundo. Um outono fértil de primavera  perpassa a raiz do seu modo de ser, enquanto o rio do tempo jorra luz no semblante que ilumina cada instante que a vida oferta. A grandeza humana pousa no bolso cardíaco deste nonagenário da melhor estirpe.

Carta para Valter Hugo Mãe

Carta para o Valter Hugo Mãe, enviada numa garrafa pelas águas expressas do rio Jacuí, que na garupa da lagoa dos Patos há de embarcar no oceano Atlântico.  Valter Hugo,  mãe dos nossos alentos, sou um gurizinho aqui do Sul, sem norte ou estrela-guia. Li a carta que escreveste para Marcelino Freire. Intrometido que sou, me senti destinatário  e remetente de tal escrito. Também gosto de modelar os brinquedos da vida com os barros do Manoel. Tomo banho de proparoxítonas  no Velho Chico, Geni que é  nestes tempos de luminárias quebradas. Do mesmo modo que Marcelino, nasci no ano de 1967, tendo habitado já dois quartos do casarão que seria viver por um século.  Sou machadiano do cabo  à lâmina e, dentre tantas flores bonitas do Guimarães Rosa, tenho verdadeira faceirice em ver pastar, pensativo e forte, o pequeno-grande burrinho pedrês. A cada ano fico mais criança, maduro em subir nas árvores, ignorante na gravidade de ser puxado pelo chão, num tombo que ...

Ailton krenak

Espelham-se verdes, céu, aldeia, ontem,  as manhãs, nos olhos grávidos do Krenak. Corre um rio doce na floresta  que é o peito dele,  enquanto no corpo do Progresso  uns olhos de chumbo espreitam as árvores, mãos de picareta tateiam o chão rico. Tais olhos e mãos, chumbo e picareta, espalham a metástase do lucro  no organismo da Terra.

Ainda o poema

O poema pode tudo, tem rodas, asas, proa, polpa e relógio.  É um delírio na casca  e nos gomos das palavras. No poema todas as brincadeiras  são possíveis e permitidas: a meninice sequer desconfia, a velhice se sabe grávida de infância.   E aqui já não é o poema  quem diz e se encanta, mas a árvore do tempo. 

Aurora

Gosto de entardecer  a palavra manhã  para que tu chegues logo à tardinha,  trazendo a aurora. 

Plauto Dutra dos Santos Júnior

Meu amigo Plauto Júnior, Seco, por apelido antigo, não nasceu apenas uma vez. São muitos os nascimentos dele  nessa vida de bondade inesgotável: o nascimento da irmã, o nascimento da filha, o nascimento de cada gol do Grêmio, o nascimento de inúmeras amizades. A fraternidade e o convívio empolgam  até as alegrias das mãos dele,   numa festa imensa de gestos. Seco não tem órgãos de ódios ou maldades. O coração dele tem batimentos de infância  e o agir é fraterno e brincalhão, leve. Agricultor de amizades, vive num latifúndio  de ser querido por todos, pequeno pássaro a ser cuidado. 

Varal do horizonte

O inverno pendura sua capa  de tecido gasoso e cor cinza no varal do horizonte. A vida não tem pressa  na vizinhança do sossego, onde os pequenos barulhos sentam na varanda da nossa audição. O coqueiro teme arranhar o céu,  olhando do alto as peripécias do tempo. No sótão da nossa imaginação  o sol coloca lenha na própria fogueira, aquecendo cada recanto do verbo amar.

Namorada

Tateio a tua ausência  com a mesma mão  que em outro poema  tomou a forma do teu seio.  Minha boca tem memória  da tua pele arrepiada, minha alegria conhece a geografia de te querer.

29 anos de casamento

(25/03/2024) Companheira, continuamos  a repartir casa e horizontes.  És uma das principais alavancas  que movem meu mundo.  Amo imensamente cada  célula que te compõe. Quando pousas tua presença  nos meus olhos fico inebriado de silêncio intimamente prazeroso, filósofa do meu cotidiano que és.  Gosto de colher o mel da lua  em que vivemos e não canso  de permutar sensações e alegrias  ao explorarmos juntos o quintal da Via-Láctea.  Queli, casaria contigo novamente  em todas as vidas que acaso vivesse.

Para o Henrique

Ah, filhote, lembro perfeitamente  da alegria imensa no dia em que me tornei pai: 04 de agosto de 2000. A vida passou a ser um Jipe sem capota, uma nova aventura diariamente. 

Cordão umbilical

Há momentos em que as mães  se banham com a água  dos próprios olhos diante da ausência dos filhos. Até que percebem que o cordão umbilical nunca  é cortado no côncavo da alma. Neste momento suspiram e fortalecem o amor materno. 

Diversão

O divertido mesmo é colher  butiá em bergamoteira, pendurar adjetivos  no varal da infância,  tomar sopa com garfo, enxertar a vida plantando  bananeira e batata,  compotando-se  das palavras mais doces.  E rir mesmo diante  da diáspora dos dentes.

Na esquina em que nasci

Na esquina em que nasci  existiam lâmpadas de vaga-lumes, as janelas tinham um bocadinho de paredes. Os tombos se serviam de mertiolate, a gravidade, senhora muito séria, abacateava as calçadas.

Luar de março

A pele da noite  é suave e carinhosa. Um gomo de luz indica  o final da estrada. 

Pétala do momento

Não, minha querida. Não recusa o sol e um gole de água.  É preciso que te fortaleças mesmo quando cai a noite. Visita sem pressa o teu âmago, abraça a ti mesma, pula sapata, colhe a pétala do momento. És a lavoura abundante da ternura, mulher que não teme espinhos. 

Doçura

Apareceste à porta dos meus quase 57 anos trazendo uma volúpia renovada. Meus versos querem te beijar, apalpar tua geografia de abismo. Entrelaçar vontades, habitar teu olhar, repetir a doçura de te desnudar.

Lua cheia

Livre, na imensidão do tempo, a luminária incansável  leva sua luz suave à cabeceira do poema.

Oferta

A vida fica bem melhor  quando se oferece  um buquê de sorriso  acompanhado do ramo de um olhar de alegria.

Rio Jacuí, em Cachoeira do Sul

Nosso rio é doce e lúdico, cai em pé e corre deitado envolvendo nossas quilhas, direcionando a proa  dos nossos sonhos.

Peninsular

Mesmo sendo brasileiro, conto a mim mesmo  que nasci em Portugal. Sou península, tendo no meu lado  que é mar uma água sossegada que,  conforme os ventos, pode tornar-se onda perigosa,  de virar barcos e sentimentos.  Sinto-me português como se o idioma  fosse um topônimo,  há algo de Pessoa em mim. Agrada-me a ideia de um país pequeno, onde a linguagem formal  aceita a expressão "mais pequeno",  há alguma boa criancice aí. Brinco de imaginar que meus bisavós  nasceram em Portimão, Tavira, Albufeira, Mirandela e que cresceram  azeitados nas oliveiras mais humildes,  gente miúda de posses e cujas enxadas,  num tino de horizonte, legaram Lisboa, bondes, cadernos, livros e lápis aos filhos.

Mais continente, menos ilha

Andava o poema roliço, satisfeito de adjetivos, sonolento de metáforas, pesado de autorretratos. Que caminhe até o mar, indicou Pablo Neruda. Deve subir nas árvores, disse Manoel de Barros. Mais continente, menos ilha, lembrou Fernando Pessoa.  Retire a pedra do caminho, solicitou Drummond.  Vá até a esquina buscar quintanares, sussurrou Manuel Bandeira. Leveza, passarão! admoestou Mário Quintana.

Namorada

Quando a lua está acesa, e a janela anoitece sua jornada pública, nos tornamos ilha. Nossas bocas são alimento, tuas mãos têm vestígios de sol. Enquanto tua cintura, sempre ela, enlaça o instante e paralisa o tempo. 

Um corpo que chora

Ainda chora o corpo em cujo dna a chibata esculpiu feridas e cicatrizes. Chora ao ver a chegada do sol trazendo a luz que colheu na África. Inunda-se de sal nos olhos, numa ardência avoenga. Em meio a tanta dor genealógica  a garganta soluça uma flor que jamais morreu no peito.

Brincadeira

Ah, doce e incansável sina,  bicicletar na polpa da lua cheia, feito quem brinca de desligar as Três Marias.

Herança

Contarei aos meus netos  que ergui barricadas com os pronomes retos, quando tudo era oblíquo. Direi que carreguei nas costas uma cidade, feito um tronco de algodão.  Saberão que sofri horizontes, que bebi nas nuvens em estado de raios e trovões.  Contarei que desfaleci ódios  e outras dívidas bem humanas. Direi que fiz parte da caravana  que buscou trigo. Eles lerão minha pele com a pedra de roseta  que é o meu olhar e descobrirão que reparti  todo o meu ser, casa pequena  na curva de chegada.

Incompleto

Amo porque sou incompleto  de ternura e troca de olhares. Amo como se plantasse uma árvore nova em meu peito. Esperançoso em lembrar do ontem, saudoso do amanhã que telha o caminho íntimo e plural. Amo desnorteado de sul, inebriado com o aroma do pequeno córrego  que surge da nascente dos olhos. Meu ouvido aconchega a tua voz e no pátio do que sinto há bancos confortáveis  para o teu silêncio amoroso.

Namorada

Namorada, tens a semente do voo  em cada gesto e um buquê  de sol nascente no olhar.  Teu ímpeto é fogo se alastrando  na água da chuva, lavoura de risos. Tua cintura é abismo de tombo prazeroso,  casa no oco da novidade.

Para meu irmão Davi

Davi, guardei tua frase no bolso cardíaco: "Como é o coração dos pobres do mundo!" Lembrei da pequena casa aberta  para os humildes do bairro, Lotários, Marias, Clotildes, Iones e o nosso aprendizado com eles. Eram verdadeiros cardiologistas e nos humanizaram para 

Para meu irmão Daniel (Gão)

Gão, lembrei há pouco que era tu  quem acendia as estrelas nas janelas da nossa pequena e inesquecível casa. E, num divertimento tão teu, tirava uma das estrelas do Cruzeiro do Sul e a colocava junto das Três Marias, causando uma confusão astronômica.

Lembranças

Teus olhos sorriem um azul de início dia enquanto nossas bocas repartem uma intimidade madura. O outono cobre de folhas  o pátio das lembranças. 

Barco

O barco bebe sol para compor a partida. Sua âncora procura o horizonte. 

Gravidez

Foi o leite materno que me fez a alma repleta de progesterona. Vivo numa eterna  gravidez psicológica,  até a barriga cresce, com os gêmeos  lutando por espaço: Poema e poesia. Com dedos de prosa, versos em formação, pesando-me levemente.

Seara de beijos

  Na seara de beijos  toda colheita exala  uma intimidade  florescida pelo olhar, que foi o primeiro a querer.

Quase molhada

Estávamos eu, Alberto Caieiro, Bernardo Soares, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e outras Pessoas descosturando o poema sob o linho do céu,  na linda noite de anteontem.  Na foz do silêncio vimos uma estrela quase na lâmina d'água do nosso olhar. Num consenso ligeiro a chamamos de:   "Quase Molhada".

Reinícios

  Mãe, tua presença umbilical  anda a fazer brotar reinícios em mim.

Oficina literária

  - Retífica de metáforas - Retirada dos arranhões    da lataria dos substantivos  - Restauração do estofamento dos adjetivos - Encurtamento das carrocerias dos parágrafos  - Acabamento em proparoxítonas         

Revisitando a história

  Façamos um exercício de imaginação:  o teu bisavô e o meu bisavô  se conheceram na infância.  Teu bisavô foi comprado na África (não há erro de grafia aqui,  era "comprado"  mesmo que eu queria escrever)  e o meu bisavô era filho do comprador.  Ambos brincavam juntos e cresceram amigos. Quando ficaram adultos, meu bisavô  herdou o teu bisavô.  Um amigo proprietário do amigo. Há quem não se interesse, há quem negue  ou queira falar de outros assuntos,  há quem pense que isto é um  simples exercício de imaginação. 

Proparoxítono

Se não bastasse ser o sétimo e último filho, nasci na noite gélida de 08 de julho de 1967, que foi um sábado, término da semana.  Sou proparoxítono de papel passado, registrado no cartório das acentuações, tendo a lua como âncora. 

Metáfora

  Não vou descascar o poema maduro, que verte açúcar nos adjetivos.  Já não posso mais com tanta glicose literária. Quero a metáfora que empilha tijolos  para tecer o agasalho da intimidade,  com os substantivos que alicerçam o cotidiano. 

Um suspiro

  Fui mãe quando deitei com ele, depois fui mãe sozinha, na tristeza e na doença. Minha filha era a alegria  e o remédio, ela me amanhecia. Eu andava pesada de tanto carregar noites. Fiz fogo de uns restos  de árvore que encontrei conforme caminhava  mais e mais longe de casa. Ser mãe é fazer fogo todos os dias.

Coqueluche de risos

Recolhi todas as pedras que atirei, já nem procuro mais telhados de vidro. Quero a coqueluche de risos para alicerçar a vida.

Verbo de vitrine

Poemar: ação de conversar  consigo mesmo em voz alta para que os outros ouçam. 

Lá em Cachoeira do Sul

  Entre os invernos de 1974 e 1984 fiz o trajeto, de ida e volta, pela pracinha que intermediava  a igreja Santo Antônio e a Fundição Kerber. A cerração, consequência da chaminé  do mundo avariada, tornava esquálido  o enxergar juvenil, em julinas conspirações.  Cada palmo de frio era o subsolo de um termômetro muito pessoal: a distância em relação  ao acolchoado artesanal  cerzido pelas mãos  de primavera da minha vó. 

Outro século

  Que fique para outro século o recado de tijolo  que tenho a transmitir. Somente pluma  a este carregar cansado  que é desanoitecer. Quero apenas a gravidade que derruba os frutos.

No caminho

  Ela apalpou de leve a própria vida. Já não tinha pressa nem angústia.  Desfez a horta dos rancores e pensou:  "Não sou, vou sendo."

Grande colheita

Semeávamos entardecer  e colhíamos lua cheia.

Balde de sol

Entre os apetrechos do cotidiano  um balde repleto de sol para lavar o caminho. 

Eugênio de Andrade

Era inverno na estação do outono quando vesti tua poesia, Eugênio. Teus versos tinham a minha medida, a temática me agasalhou a imaginação.  O ritmo era um casaco de lã de corte apurado, as estrofes eram botões impedindo o vento frio dos poemas sem sangue. Quando chegou o verão na casa da primavera tua obra serviu de rio navegável  e refrescante para o meu ardor literário. Ao utilizar teus trajes escritos estou sempre bem vestido para o passeio da vida.

Namorada

Sempre que anoitece sei que trarás teu sol de bolso à cabeceira  da minha memória e do encanto que incansavelmente tenho por ti.

Para a Queli

Bebi a água fresca da concha das tuas mãos, engravidei meus olhos  com as tuas janelas e vi tua seara de sol  em cada esquina.

Calças curtas

Vou envelhecendo de infância, em mim a primeira esquina  jamais se aposenta.

Nós, os Alves Soares

Tu, que fez da Kombi  uma casa andante, é meu irmão de sangue fortalecido.  Tu, que fez escorrer das mãos  os grãos de arroz da tulha,  é minha irmã de fartura dividida. Tu, que iluminou o escuro  do meu medo infantil, é meu irmão de luzes acesas. Tu, que se agasalhou  da grandeza da pequena casa,  é minha irmã de aconchego familiar. Tu, que primaverou  o inverno mais rigoroso,  é meu irmão de sol nascente. Tu, que folheou de outono a calçada  por vezes escaldante,  é minha irmã de sombra refrescante.  Tu, que passou a roupa que  não mais te servia para  a gaveta dos meus pertences, é meu irmão de casulo coletivo. Tu, que avermelhou o horizonte poente, é minha irmã suavemente colorida. Tu, que ajanelou  as paredes mais espessas,  é meu irmão de ímpeto verdejante. Tu, que ajudou a me  semear na intimidade,  é meu pai de dna ofertado. Tu, que emprestou  o côncavo amoroso para eu morar,  é m...

Luar perpétuo

  A luminária antiga banha Ouro Preto  com sua luz serena e pálida há mais de trezentos anos. O jorro poético que cai das suas torneiras adormece os sustos das janelas idosas.

Todos os cômodos da palavra carinho

  Sei cada pedaço teu pelo tato  do meu coração atento. Admiro tua vontade incansável,  teu fazer-se mulher mesmo quando  da ausência de remos para levar adiante  o barco de navegar pelo cotidiano. Quero te presentear com todos  os cômodos da palavra carinho.  Mobiliar teu peito com um  domicílio de árvore e um bater de asas,  uma junção de ir, vir e ficar.

Delicadezas

  Na casa da tua boca a água é labareda, no teu olhar desnudado faço cama  de acender as delicadezas do quarto.  Teus ombros derrubam minhas mãos  até a sacada dos teus seios, tua cintura é areia movediça, corda ausente, socorro impossível.

Meu pai e eu

  Meu pai tem 91 anos de idade, eu tenho 57 anos de idade. Quando juntamos nossos jeitos de rir de algumas seriedades  de uso comum e formal as gravatas e a sisudez viram  cambalhotas na pracinha da vida. E a Lambreta dos deboches desce sem freios a ladeira das convenções e das modas. 

Palavra

  Cada palavra agora é um sol ou o frescor da água repartida. Cada palavra agora é bálsamo, aglomeração de gente em festa. E no veludo verde da grama fazemos um piquenique  com as guloseimas da ternura.

Amanhã

Quero levar meu punhado de sol à semente do esperançar.  Sou feito de navegações costeiras, na franja do continente sonhar, pesca coletiva, lavoura de palavras. Tenho a casa da infância  enraizada na lua, desejo crônico de ser  pequeno agricultor de poemas sem watts. Sou apreciador da claridade  pouco robusta dos vaga-lumes. Amanhã é árvore que se planta hoje.

Trabalhador braçal

Meu tio-avô Lotário emparelhou espaços, semeou esperanças, colheu desafios. Plantou água, ensolarou seu mundo. Não há dia em que eu não lembre que ele me alfabetizou de simplicidade. 

Enamorada

Lavou o rosto com sol e se vestiu  com o linho de céu azul. Cada árvore era uma pétala em seu peito. Respirou a lua,  suspirando primavera.  Ele estava chegando, com sua bagagem  de engravidar amanhãs. 

Mesa da infância

Ouço com os ouvidos da ternura a algazarra da mesa da infância.  Dois pães de meio-quilo fazem brotar trigo na horta da minha memória. 

Cachoeira do Sul

Cachoeira do Sul não é  apenas minha infância,  minha saudade e memória.  Ela é a casa de portas abertas da minha família e amigos. Organismo vivo e pluricelular, uma espécie de encanto engravidando as pracinhas. Um porto para se chegar de bicicleta, um aeroporto para as plumas de uma antiga paineira, um mural com todos os que partiram.  Cachoeira não é apenas uma cidade, é a boa lágrima no peito, o batimento cardíaco nos olhos, as ruas com as cinturas flexionadas. É o quilômetro zero da nossa jornada, um céu carregado do azul das crianças, o passeio diário dos anônimos.  É uma reminiscência na semana que vem, um relógio que quer esquecer do tempo, uma árvore que corre ao nosso encontro.  É o lugar para se acender o sol na faísca  de uma bolita batendo em outra, juntar a geada com as mãos, fazer de luva o aconchego da mãe.  Cachoeira é uma geografia de pão, chuva morna nas calhas, um atestado de amor, beijo na boca ao entardecer.

Luz da tarde

Queria que o poema sentasse  à sombra do plátano agora e suspirasse a luz da tarde em desmedida preguiça.  E que a cada final de estrofe um bocado de pão fosse repartido  entre as mãos estendidas.

Pólen de horizonte

Fiz ninho na árvore do poema. Um pólen de horizonte  se pendura no galho do verso.

Professora Zilka Dorneles

Há 50 anos eu estava sendo alfabetizado pela professora Zilka Dorneles, a mais doce criatura que o Magistério já teve, lá no colégio Roque Gonçalves, em #cachoeiradosul.  Ter sido alfabetizado foi um dos maiores  acontecimentos da minha existência: minhas células de passear pela vida são compostas pelas palavras escritas. Dona Zilka, muito obrigado! Receba este buquê de lembranças  aí na sua casa no vão da eternidade. 

Minha Cachoeira do Sul

Carrego minha Cachoeira do Sul  na mochila da vida. Ninguém me pediu ou deu ordens para tal. O fardo me é leve: minha família, amigos, um pouco do colorido do céu, o meio-fio da nossa rua, a gávea do abacateiro, o casario baixo  e de janelas abertas. Nos bolsos cabem algumas peripécias, algum riso que não ofertei e o nome de muita gente que embarcou no último trem.

Encantamento

  A lua jamais despenca, apenas deixa cair porções de encantamento.

Luz derramada

A cidade de Cachoeira derrama luz para o sul do meu coração.  Faz cascata das cores do dia, se despejando na foz da saudade. No peito da lembrança  as calças curtas da infância.

Andarilho que sempre fui

  O colégio me transpassou, com seus punhais avaliativos, a imaginação pueril. Uma gangrena de cura difícil  quase me fez ter que amputar  meu órgão de sonhar acordado. Os corredores escolares me levavam a um beco de versos ressequidos, cujas estrofes eram  cacos de vidro na grade curricular. Levei três décadas para cicatrizar a audição ferida pelo agulhar sombrio da sineta  que iniciava as aulas.

Biografia

Nasceu na esquina enluarada, lá em Cachoeira do Sul.  Estudou na Instituição  rua Ernesto Barros, graduando-se em pilotagem de carrinhos de lomba e artesanato de entardecer. Arborícola autodidata, enraizou-se de infância. No último quarto de século, alcova das melhores delícias, viveu apaixonado e beijando muito.

Um corpo de vinho

  Há no vinho, talvez embriagado, seco, tinto de sangue, o corpo engarrafado de um trabalhador. Plantou, cuidou, colheu, todo ele um parreiral, pisoteando os dias, a saúde, as misérias. No rótulo não se lê as amarguras da uva, pedro, ana, josé, apenas um nome fantasia do patrão.

Pronta recuperação

  É uma manhã cinzenta de junho de 1979. Ventos frios açoitam a janela e assustam as crianças. Uma tosse inventada polui o silêncio da hora: são sete horas. Ao olhar da mãe as pernas pesam, o caminhar fica adoentado. É preciso mostrar-se fraco, com dores por todo o corpo, para que seja permitido faltar à aula. Às sete e meia o armazém estará aberto, há expectativa de guaraná, bolachas Maria e maçã argentina, remédios que curam tosse e qualquer dor. Às sete horas e três quartos a campainha do colégio vai anunciar o início das aulas. É preciso falar baixinho, encurvar as costas, pigarrear, tremer de frio. São oito horas, é uma manhã de sol, não há qualquer engano, pois se vê pela janela do quarto o céu embebido em azul, puro e calmo, e a guaraná é frisante, ou seja, produz borbulhas.

Bilhete

  Queria te contar neste bilhete  que suspiro com o gosto da tua boca na minha boca. E que calcei meu andar com as pedras que não atiro mais. 

Namorada

Talvez seja necessário repetir, repetir, que tens pouso certo no meu pensamento. Dizer inúmeras vezes que teus olhos me acalmam, tua voz me empolga. Renovar com fogo e água a paixão que sinto por cada gesto teu. Revisitar teu quintal, espiar tuas janelas, rir dos teus gracejos, acariciar tua mão. E repetir, repetir, o quanto é verbo novo te querer de coração leve e quase juvenil

Samuel de Aguiar Soares

 (Idade atual: 91 anos, 11 meses e 10 dias) Ah, meu pai, trocar risadas contigo  em meio as nossas pequenas brincadeiras corriqueiras, sentados no colo da vida, é riqueza que carrego para repartir pelo mundo.

Namorada

Admiro teus olhos incansáveis  quando a labuta do dia pede tua atenção inteira. Um sentimento de veludo  toma conta das minhas mãos  quando elas passeiam  pelas tuas preocupações.  Sinto que as muralhas que ergues  com fôlego redobrado são capazes  de proteger a tua e a minha vida.  Cada ato teu é um começo de luz.

Delicadezas

Teus ombros derrubam minhas mãos  até a sacada dos teus seios. Tua cintura é areia movediça, corda ausente, socorro impossível.

Leveza pura

Pequenos barcos enfeitam de sossego  a anca do rio enquanto ele bebe  um bocado de azul e outro tanto de verde,  se alimentando do voo de leveza pura das revoadas ao entardecer. 

Fachadas

Apura teu ouvido, leitor: um badalar de essência  faz revoar um bando de poemas de fachadas recém pintadas.

Sussurros

Ouro Preto não grita. Apesar das suas mazelas, sussurra o cotidiano  escorada no baú do tempo. 

Bolsa de valores

São poetações o que carrego nas algibeiras  dos meus investimentos.

Lá em Cachoeira do Sul

Nasci  na beira de uma esquina  no sul da infância imperdível.  Sétimo e último filho, vem daí minha gravidez constante  em palavras proparoxítonas.  Tenho olhar de várzea  em busca de morro alto, herança geográfica registrada no cartório  dos andarilhos sem pressa. Sou reiteradamente cachoeirense: meu destino é olhar para trás  de braços abertos. Sou paralelepipedado na sola dos pés e morrerei na ladeira de uma  das sílabas da palavra ontem. 

Piquenique

Façamos da vida um piquenique:  que cada um contribua  com seu punhadinho de sol.

Seara

Desta seara em que  me mostro ao mundo  pretendo que brote o pão e o cajado, o telhado e a janela.

Poema

Diz janela, diz porta, não deixa que o poema  seja apenas concreto.

Minha mãe

 ZAIR ALVES SOARES   02/08/2024   (89 anos, onze meses e 12 dias) Mãe, estava aqui deitado na rede  das memórias quando lembrei  da temporada em que morei  no aconchego do teu útero. Foi um período muito bom: recebia cócegas nos pés, café com leite pelo cordão umbilical  e ouvia suaves canções de ninar. Lembro que no finalzinho deste período,  primeira semana de julho de 1967, tu me alcançava bergamotas (já descascadas). Ah, era a grande festa da partilha!

Zair Alves Soares

  90 ANOS (21/08/2024) Mãe, ainda me alimento de ti  pelo cordão umbilical que  o teu olhar amoroso me alcança. Nutro a solidariedade que o teu fazer  me ensinou em longas jornadas  de exemplo abnegado,  onde as tuas mãos eram  o próprio pão e também o forno. Minha primeira casa, telhado sagrado, armazém do compromisso, és uma fonte inesgotável de humanidade. A palavra grandeza é pequena  para definir teu caráter,  há de se usar o tamanho do mundo  para medir tua dignidade infalível.  No ventre das tuas atitudes  se desenvolve a essência do que é  necessário para melhorar o mundo:  respeito, empatia e amorosidade atuante. Porto, revoada, alicerce,  tens o dom de plantar futuro,  deixando a colheita para  quem precisa dela. Tricô, acolchoado, vigília, teu ímpeto é sempre protetor e atento. Amo teu colo, o casaco quente  que é o teu abraço e a brisa suave  que é o teu canto de ninar. Amo saber d...

Cachoeira, 20 de agosto de 1934.

Vicentina Alves carrega vida na pequena casa do útero.  Caminhou algumas quadras e está ofegante, quase cansada. Sente o movimento da criança e instintivamente acaricia a própria barriga, sorrindo. É jovem, não tem muitas certezas, mas poderia apostar que será  amanhã o dia do parto. Sim, amanhã, 21 de agosto de 1934, e será uma menina, de nome Zair. A parteira será a avó da criança, Gaudência. E aqui o narrador, emocionado, antecipa alegremente o futuro: Zair será mãe de sete filhos e eu, Robson Alves Soares, serei o caçula desta mãe maravilhosa. 

Namorada

Fico tomado de sol  quando te vejo contente.  Nessas horas sou capaz  de fazer chover pétalas de carinho. Somos assim, uma mistura de sol  e encantamento, chuva e reencontro, suavidade e mãos despudoradas.  Eu sempre te percebo.

Na esquina em que nasci

Na esquina em que nasci, em  Cachoeira do Sul,  existiam lâmpadas de vaga-lumes, as janelas tinham um bocadinho de paredes. Os tombos se serviam de mertiolate, a gravidade, senhora muito séria, abacateava as calçadas.

Retorno

O  poema quando retorna não quer cruzar a ponte. Prefere molhar no rio cada verso e anverso, a ver se a água tem força para mover os moinhos das metáforas.

Há luar em mim

  Quando minha mãe ficou crescente de me esperar não poderia adivinhar que eu viveria suspenso o tempo todo num tombo que nunca cai

Água fresca

Bebi a água fresca  da concha das tuas mãos,  engravidei meus olhos  com as tuas janelas e vi tua seara de sol  em cada esquina.

Despedida

Despeço-me, dolorido de saudades antecipadas. Não sei o que deixo, mas vou quase vazio, no peito magro um tijolo partido. Voltarei em quinze minutos, se não houver fila na padaria.

Doçura

  Apareceste à porta dos meus 57 anos trazendo uma volúpia renovada. Meus versos querem te beijar, apalpar tua geografia de abismo. Entrelaçar vontades, habitar teu olhar, repetir a doçura de te desnudar.

Mulher

Quero a mulher que tenha colhido décadas e não tema o estio que por vezes entra pelas frestas do viver. Quero a mulher que segure a boa esperança pelo cabo e, num rodopio, semeie estrelas. A mulher que quero, semeadura em meu peito, já quero há muitos anos.

Namorada

Tens a semente a semente do voo em cada gesto e um buquê  de sol nascente no olhar. Teu ímpeto é fogo se alastrando  na água da chuva, lavoura de risos. Tua cintura é abismo de tombo prazeroso, casa no oco da novidade. 

Diversão

O divertido mesmo é colher  butiá em bergamoteira, pendurar adjetivos no varal da infância, tomar sopa com garfo, enxertar a vida plantando bananeira e batata, compotando-se das palavras mais doces.

Namorada

O poema te enlaça  como se fosses violão, fazendo vibrar tua cintura que vale por uma orquestra inteira.  O poema tem maestria, aptidão para o toque, desejo de harmonia. 

Quintanar

Não me refiro aos quintanares de bandeira manuelina. Quero o quintanar de futuro límpido  e asas suaves: eles passarão! 

Recado redondo

Quem dera eu pudesse  dominar a lua no peito  (palpitação constante)  e num chute de pluma  acertar tua janela aberta

Companhia de navegação

És minha companhia de navegação  neste arquipélago que é viver. Tens o monopólio de escolher a enseada em que minha âncora  vai repousar seus ímpetos. 

A paineira

Lembro que o ar revoava e um bando de plumas despetalava-se da paineira. Uns de nós sopravam, outros riam. Jamais fomos tão leves.

Nós e o tempo

Quando as janelas  das tuas pálpebras  decidem encerrar o dia a lavoura de estrelas  irrigada por teu riso faz brotar a luz que alimenta o beijo. Nossas bocas se deliciam com os dizeres da voracidade, num ménage entre nós e o tempo. 

Casa

Esbanjador de tatos em forma de cintura, parte interna da coxa, amplitude da boca, arrepio das costas, sossego do colo, fico protetor nessas abundâncias, talvez por pensar que o carinho é uma casa.

A mulher mais doce

Eu tirava a primavera dela, devagarinho, pétala por pétala, outonando-a gomo a gomo.

Febril

Tentava remediar tomando chá, aplicava emplastros de prosa. Nada adiantava ou curava: sofria de poesia crônica, tossia versos sem métrica, lacrimejava metáforas, febril de proparoxítonas. 

Chegada à foz

Posso muito quando o rio das tuas mãos faz flutuar  a jangada que sou, atrasando a chegada à foz.

Dedos entrelaçados

 Não sei me apaixonar  com os olhos emudecidos, com os braços cruzados ou com a boca não querendo beijar. Minhas células do querer precisam de dedos entrelaçados.

Lá em Cachoeira do Sul-RS

Era pela janela da nossa cozinha  lá em Cachoeira do Sul  que o sol partia para  o banho noturno no rio da Prata.  Voltava limpo pela porta  da frente no outro dia. Por um engano da alquimia, não vinha prateado depois  do enxague, mas dourado  de atlânticas riquezas.

Chuva imprevisível

Que não venham  me contar sobre a previsão do tempo. Quero me molhar de chuva imprevisível, tomar banho  no chuveiro da calha e fazer barquinhos  com as cascas das painas.

Mia Couto

Rio é uma palavra caudalosa, pode virar uma embarcação, pode virar uma gargalhada.  Mia Couto é rio que enfeita as ancas com terra, enquanto ri na companhia  de estrelas e árvores.  Mia, por não querer rugir.

Semear saudade

Tenho um burrinho de puxar arado, pequeno, quase portátil. Já me disseram que não dá lucro,  mas insisto em semear saudade.

Aurora

Se chamava Aurora e era tímida. Abria as venezianas do dia  como quem dá pão  para um filho pequeno:  a mão feito um coração  que não cabe no peito.  Salpicava de luz suave a penumbra,  orvalhando o pátio dos primeiros  minutos da sinfonia do silêncio.  Desenrolava o novelo do tempo  no colo da esperança acordada,  nos moldes da namorada que reparte  sonhos com a pessoa amada. Nas tranças do desejo um carinho  de paixão correspondida.

Namorada

Posso te dar um buquê  feito com as pétalas dos olhares que não te entreguei por receio.

Comprovante de residência

Atesto, para os devidos fins, que moras no meu coração, situado a meio caminho  entre o horizonte e a vida até aqui.

Sementes de lua

Catei o vento, cerzi a linha da vida, debulhei as espigas das estrelas. Plantei caminhos com as sementes  de lua que carrego nos bolsos e na concha das mãos  recolhi o verbo esperançar.

Olhar de alegria

A vida fica bem melhor  quando se oferece  um buquê de sorriso  acompanhado do ramo de um olhar de alegria.

Namorada

Vou dormir enroscado na tua ausência. Vais amanhecer com um poema  pendurado na tua janela. 

Quintal da minha alegria

Eu te procuro em cada riso que ouço à distância. Vivo num estado de êxtase  nas tuas entrelinhas. Teu dizer mínimo é  uma avalanche de sol  no quintal da minha alegria.

Saudades

É no entardecer que amanhecem as saudades inexplicáveis.

Minha tribo

Minha tribo é tudo o que habita  as janelas abertas  que carrego nos bolsos: um João-de-barro cerzindo  delicadamente a própria casa, um andarilho risonho se alimentando de horizontes. A chuva aguando teu riso, uma revoada ao entardecer.  Um favo de mel, o jorro da fonte,  a sensualidade do teu silêncio.  Um cachorro sem qualquer rancor,  um avô segurando com cuidado, feito cristal, o pequeno neto. A folha se despedindo da árvore,  teu olhar pousado em mim. A coragem de ter medo  alicerçando o caminho, teu aconchego diário. Tua boca disponível, uma laranja sendo desnudada,  tuas curvas segurando a minha mão.  A percepção aguçada e solidária, um dia novinho saindo do forno.

Namorada

Apareceste na minha vida há três décadas, vestida com o linho do bom humor, me alcançando um buquê de ternura.  Só sei gostar usando as mãos, emprestando minha boca, enluarando a janela.

A pétala do momento

Não, minha querida. Não recusa sol e um gole de água.  É preciso que te fortaleças mesmo quando cai a noite. Visita sem pressa o teu âmago, abraça a ti mesma, pula sapata, colhe a pétala do momento. És a lavoura abundante da ternura, mulher que não teme espinhos. 

Gorjeio

Há escritos que voltam  a gorjear a cada primavera. Vivem soltos e vez ou outra pousam na minha memória: um sabiá avisa, melodiosamente, que é fértil, solteiro, tem ninho próprio  e quer constituir família. 

Folhas de amanhã

Viver é procurar  folhas de amanhã  nas árvores de ontem.

Carretel

Novelo e desnovelo um fiozinho de ontem no carretel enorme que pouco cabe no bolso.

Revoada

Chegas sem pedras, acariciando com tua luz meu telhado de vidro. Cada gesto teu é uma revoada para a casa ajanelada pelos olhos. O lençol da tua nudez cobre  de intimidade cada abismo  que o corpo oferece. 

Algum dia

Algum dia a redondeza do tempo fará  com que eu encontre o guri que fui. Há de acontecer.  E direi em tom professoral para  o pequeno que não deixei de ser: "Esquece o colégio, te dedica somente a ser pastor de nuvens!"

Ainda o amor

Sou do interior do continente, da terra firme. Não temo nem ouso o mar, preciso apenas feminilizá-lo, então ouso a mar. E temo.

A dureza de nascer

Fui nascido numa noite de julho de 1967 pelas ordens da minha vó, que era bem treinada no corte e costura  de barbantes umbilicais.  Há 15 dias estavam vindo bater na porta do meu recanto sossegado no útero  da minha mãe e eu me fazendo de surdo. Tinha receio de sair e ser obrigado a cozinhar, passar roupas, lavar a louça, arrumar o chuveiro e trocar lâmpadas. Prometeram que eu teria um acolchoado  caseiro e um colchão que farfalhava, seria aquecido por um fogão à lenha e, pra melhorar, juraram que eu não precisaria cortar lenha. Tudo bem, eu disse, mas também  exijo pinhão descascado. 

Fotossíntese

Fico invertebrado quando a tua ausência corrompe os mínimos alicerces do dia. A vontade de te tocar e conviver  é o verdadeiro prumo quando sou casa vazia. Tua chegada solar, mesmo diante da chuva, restabelece minha fotossíntese. A ternura se põe a florir, o tato se arboriza e não há limite para  o tanto que posso dizer.

Um copo de horizonte

O poema acordou sem preguiça, bebeu um copo de horizonte  e foi recolher as palavras  que a noite desfolhou.

Namorada

Gosto quando derramas  teu olhar em mim. Bebo cada gole desse  teu dizer sem palavras. E sempre fico embriagado  deste fascínio que é  te querer a cada instante.

Eu te procuro

 Eu te procuro em cada riso que ouço à distância. Vivo num estado de êxtase  nas tuas entrelinhas. Teu dizer mínimo é  uma avalanche de sol  no quintal da minha alegria.

Incurável

Mertiolate, benzeduras, vacinas,  cataplasmas, promessas, nada consegue evitar: sigo em órbita da lua.

Teu porto

Que o teu navio parta amanhã  deslizando pelo corpo  do oceano que escolheres. Que no porão só caibam  os nós desfeitos e no convés  apenas uma bússola antiga que te faça retornar ao porto de partida. Que o teu desejo de horizontes  seja o mestre dos teus mares. Que a âncora seja sempre portátil, tua mais valiosa especiaria.

Como nascem as estrelas

Gostava de espiar o sol através da radiografia do braço forte do pai ou da mão delicada da mãe, até que um dia viu, com olhos de descobrir coisas, o acasalamento da lua com o sol. Soube então, cientificamente, como nascem as estrelas. 

Afeição

Tenho afeição por beber  o poente em largos goles,  sempre na esperança  de soluçar os luares mais poéticos. 

Namorada

Esqueci de entregar o buquê  de adjetivos que colhi pra ti. Nem te preocupa, não vai murchar. Na minha saudade tem terra fértil, água limpa e sol puro. Já a compota com a doçura  que sinto por ti entregarei em breve,  assim que a tua nudez vestir minhas mãos.

Água-benta

 Vivia arrastando o coração, feito um chinelo velho, até que bebeu a água dos próprios olhos  e ficou lavado de amor-próprio. 

Infância da vó Vicentina

Na asa do poema viajo até a infância  da minha vó Vicentina.  Os pés no chão os olhos nas nuvens a enxada na mão.  Na pele os recados do sol no córrego as notícias da chuva na semeadura a incerteza da vida.

Gente

 Amarrei o cabo da minha boa esperança  ao coletivo de gente que acorda  a manhã ainda de noite. Gente que move o mundo  com o trator do próprio corpo  e arredonda as rodas quadradas do fazer. Gente que é chuva e sol, fazendo germinar a flor do abraço.  Gente que constrói todas as formas do vidro com um punhado de areia e come a labuta.  Gente que aparafusa o mundo em jornadas  de uma vida inteira e usa a casca grossa  do dia para adubar o canteiro do sono.

Aroma

 Ah, o aroma do nosso pequeno quintal embebedando-se de chuva, a paina madura entreabrindo-se em pluma. E o nosso gesto coletivo de distribuir pão, mesmo que com trigo metafórico.