Em outro século
A rua aquietava-se aos pouquinhos,
a escuridão estendia a lona sobre o picadeiro.
As crianças reduziam seus movimentos
e algazarras, e, com a alegria
voltada para a fruição das tantas sensações,
indescritíveis até hoje,
entravam nas suas respectivas casas.
A rua dormia, mas tinha um sono leve,
sujeito à sinuosidade dos gatos,
à indelicadeza noturna dos cães,
à cantoria incrivelmente afinada dos bêbados.
As esquinas cochichavam sobre os namoros
diante dos muros horizontalmente discretos
e da longevidade concentrada
e cheia de pudores das árvores.
Usando giz em alguma calçada,
escrevendo bilhetes,
guardando uma pétala,
cuidando delicadamente
de alguma fotografia,
desenhando um coração
decorando um verso,
relembrando em detalhes
um olhar reticente.
Fazendo tudo isso e mais outro tanto,
construía-se a memória coletiva do bairro,
repartida em bolsos cheios da abundância
do lembrar, de nos sabermos uns
dos outros para sempre.
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