Filhote
Descobriu-se cachorro
depois de tanto perseguir
e conseguir morder o próprio rabo.
Ganiu e, irritado com o apêndice, latiu.
Começou aí uma nova fase da sua vida:
rosnava ou latia ou apenas olhava,
conforme a necessidade de demonstrar
para os gatos da vizinhança,
para a bola, para os carrinhos
de brinquedo das crianças,
para o balde, para as vassouras,
para algum osso, para as borboletas,
quem era o macho alfa daquele
espaço de convívio.
Quis demarcar território na cozinha,
tentativa e erro,
teve de retirar-se às pressas,
derrapando no piso liso,
ainda com uma das patas erguida
e o rabo fugindo junto.
Ganhou uma camisetinha
que lhe apertava as ancas.
Não, não e não!
Era livre no uso da sua nudez
e continuaria assim.
Esfarrapou-se com umas
tantas mordidas e rosnados,
despindo-se com dificuldade:
não serviria de motivo de riso
para os gatos da vizinhança.
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