O sorriso da minha vó

Minha vó era faceira

do primeiro ao quinto,

ria até de gota d´água.

O seu sorriso era o sinal

da chegada de coisas boas.

Amiga dos bichos, 

ela tinha um cachorro já idoso, 

quase 40 anos, que surdo, 

não mais atendia 

pelo nome de  batismo, 

que era Pórvora.

Pórvora só tomava sopa,

desdentado que nem recém nascido.

Vivia pigarreando seus latidos,

abandonado até pelas pulgas.

Nas ausências da minha mãe

eu ficava com a minha vó,

desaprendendo a história escrita

e aprendendo muito da história oral.

Um dia minha vó esqueceu

os dentes na pia do banheiro.

Eu não procurava encrenca,

fazer dano, desrespeitar idoso,

mas não me contive:

peguei os dentes da minha vó

e pus na boca do Pórvora.

Serviu direitinho, rejuvenescendo

o velho cachorro, lhe dando sonhos

de mastigar carne e roer osso.

Meu tio Lotário viu o Pórvora

com os dentes novos e elogiou de pronto:


"Tá muito bonito! 

E tem o sorriso da dona."



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