Olhos de aurora

Meu tio-avô Lotário fumava o silêncio,

tragando uma imensidão de campos,

montado num banquinho quadrúpede.

Vestia uma bombacha larga

remendada de esperanças, 

uma camisa desdentada

de alguns botões, 

um lenço furta-cor,

feito de tecido bíblico. 

Na guaiaca apenas moedas 

de tilintar miúdo. 

Nas unhas dos pés léguas 

e léguas de terra cultivada.

Nas mãos uma foice imaginária,

pra cortar o inço da vida.

Não sorvia amarguras, 

lambendo-se em rapaduras.

Na longevidade dos olhos 

uns horizontes de aurora.



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