Peninsular

Mesmo sendo brasileiro,

conto a mim mesmo 

que nasci em Portugal.

Sou península, tendo no meu lado 

que é mar uma água sossegada que, 

conforme os ventos,

pode tornar-se onda perigosa, 

de virar barcos e sentimentos. 

Sinto-me português como se o idioma 

fosse um topônimo, 

há algo de Pessoa em mim.

Agrada-me a ideia de um país pequeno,

onde a linguagem formal 

aceita a expressão "mais pequeno", 

há alguma boa criancice aí.

Brinco de imaginar que meus bisavós 

nasceram em Portimão, Tavira,

Albufeira, Mirandela e que cresceram 

azeitados nas oliveiras mais humildes, 

gente miúda de posses e cujas enxadas, 

num tino de horizonte, legaram Lisboa,

bondes, cadernos, livros e lápis aos filhos.



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