Demorei pra vir olhar este mundo
sem pressa, bebericando líquido amniótico
em um furinho que fiz na bolsa,
pensando nos tantos anos que teria
de contribuir para a Previdência,
acompanhando as andanças
da minha mãe sem dar palpites.
Entreouvia as risadas dos meus irmãos,
a lambreta do meu pai,
os barulhinhos interioranos,
sentindo o cheiro do sol de inverno.
Lamentava ainda ser
ignorante das fases da lua
e ter os bolsos vazios de bolitas.
Preguiçava minhas horas,
enquanto minha mãe me acariciava
e cocegava os meus pés, rindo-nos.
Tens que almoçar aqui fora hoje,
me disse a dona da pensão.
Fingi não ouvir, brincando de enrolar
o cordão umbilical no pescoço.
Tua matrícula no colégio já está agendada
para daqui a seis anos, tens que treinar
para amarrar os cadarços, já são 30 de junho.
Ah, não vou! Não vou mesmo!
Tenho mais o que fazer aqui.
Desapurei o ouvido pra tanta injustiça
e me encolhi inteiro em mim.
Corta a comida dele, ordenou o porteiro
com uma tesoura nas mãos.
Dei de ombrinhos, nem te ligo,
cantarolei baixinho e até assoviei.
Resisti oito dias sem comida,
tomei todo o líquido amniótico
e lutei com toda a minha
ausência de força, surdo de propósito.
Vem, disseram meus irmãos,
nós te cuidaremos pra sempre,
te empurraremos no balanço,
na roda, no carrinho de lomba,
limparemos os teus colarzinhos de terra,
te daremos sobrinhos.
Vim.

Ai, que tesouro este poema de um preguiçoso nascituro!
ResponderExcluirHahahahahaha. Valeu, Mirian!
ResponderExcluirLindo lindo demais, meu amigo-poeta!
ResponderExcluirMuito obrigado, minha melhor amiga da primeira infância!!
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