Gente argentina

Não tenho certeza,

mas acho que o meu fascínio 

pela gente argentina começou 

com o Diego Armando Maradona.

O meu encantamento 

com as soluções verticais

dadas por ele ao sempre renovado

problema de levar a bola ao gol adversário,

e a ideia coletiva dos seus companheiros 

de time em ajudar aquele 

mito de carne e osso,

todo ele qualidades e defeitos,

se tornaram causa da minha admiração.

O jamais desistir daqueles jogadores

serviu de Norte ao guri sem bússola. 

Depois do Maradona e seus companheiros,

a gente argentina que me cativou

foram os soldados derrotados 

na Guerra das Malvinas,

os soldados e não os generais.

Fui sabendo a respeito deles 

sem a festividade dos torcedores,

sem o aplauso das arquibancadas.

Estimei aqueles soldados,

derrotados, nunca vencidos,

sabedores das tristezas, olhadores do futuro.

Não comemorei o destino dos generais,

mas exaltei a justiça.

Fiz-me em abraço longo e silencioso

em homenagem às mães e avós 

de todas as praças,

em maio, junho, julho,

dezembro, janeiro...

Ouvi falar dos cortes de carne bovina,

logo eu, tão pré-histórico,

e passei a gostar dos açougueiros

e assadores argentinos.

Chegaram notícias das livrarias 

e cafeterias portenhas,

prontamente passei a louvar 

os livreiros e cafeteiros argentinos.

Ainda um pouco cego,

operei minhas cataratas

das cachoeiras do sul

e deslumbrei o paraíso 

de Jorge Luís Borges,

que nada mais poderia

ser do que uma biblioteca. 

Simpatizante de namoros,

ficações, casamentos,

conheci o filho da noiva,

Ricardo Darín,

que reabriu para mim 

as portas do cine Astral,

meu lugar de imaginações,

tiros, romance, drama.

Não havia escapatória:

passei a venerar

os atores, diretores,

iluminadores, roteiristas,

operadores de ângulos,

eletricistas, maquiadores,

todos eles gente da Argentina,

lugar prateado que nem a lua.


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