Meu pai e eu


Gosto quando vejo meu pai com os cabelos 

e o bigode de quem chegou da neve. 

Passa a impressão de que enfrentou

intempéries e saiu-se vencedor.

Gosto quando vejo meu pai e tenho

que pronunciar duas ou três vezes

a grandeza da palavra "pai" para ser 

ouvido pelo iniciozinho de surdez dele.

Passa a impressão de que nesta hora 

ele apura todos os sentidos para

exercitar a atenção paterna.

Gosto quando vejo meu pai e somamos

ditos espirituosos, bobagenzinhas,

e ele ri com toda a largura da boca.

Passa a impressão de que ele nunca

vai desaprender a rir.

Gosto de olhar o mapa do rosto dele,

onde está desenhada um pouco 

da minha geografia, o inverno da primavera.

Fico orgulhoso deste pedaço 

de DNA que carrego sem cansaço. 

Gosto de poder abraçar meu pai

e saber que ainda estamos juntos.



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