Trocando de lugar
Gosto de observar essa coisa instintiva,
pré-histórica, tribal,
com que nós nos posicionamos
ou vamos sendo posicionados
ao longo da vida diante
do perigo e das novidades.
Quando somos filhotes
nossos pais nos deixam
na retaguarda durante
a investida de algum mamute,
urso ou trovoada.
Conforme o tempo passa,
fabricamos nossos
arcos e flechas de brinquedo
e tentamos ameaçar
os primeiros raios.
Vamos avançando alguns
metros no terreno do combate,
das ameaças, e conseguimos
enfrentar a escuridão.
Um bando de hienas ri da nossa
belicosidade atrapalhada,
sinal de que já estamos visíveis,
quase sem a barreira
de proteção dos nossos pais.
Nosso grupo precisa de água
e somos avançados até
a correnteza do rio.
Pesados pelo odre,
somos mais rápidos do que
os crocodilos.
No nosso novo posicionamento
para enfrentar as estrelas
cadentes, fogos voadores,
estamos lado a lado com
os nossos pais.
Não se sabe o quanto avançamos
e o quanto eles recuaram.
Manejamos perfeitamente
tacapes, lanças, peitos estufados.
Num dia qualquer, sem que
tenhamos percebido os sinais,
as pegadas do tempo,
os avisos da nossa
própria força, estamos
na vanguarda da proteção do grupo.
Nossa primeira providência
é produzir fumaça para
espantar as abelhas.
Nossos pais nos aconselham
a ficarmos atentos aos cordeiros
que pastam sossegadamente
nas proximidades.
Dois leões rugem na grandeza
da noite.
Num salto, estamos em pé,
apurando nossas defesas.
Nossos filhos, ainda filhotes,
estão na retaguarda,
tricotando aproximações
com os nossos pais.
Vários camelos nos acompanham,
assim temos água potável,
abundante e ambulante.
Um inverno rigoroso nos ataca
por todas as frentes, destemido,
implacável, camuflado na neve.
Inverno tem medo de fogo,
foi uma das lições dadas
por nossos pais.
Por conta da fogueira,
nossa caverna tem sombras
estranhas: somos nós.
Vencido o inverno,
e o seu hábito de transformar
em gelo a água que sai
da cisterna dos camelos,
saímos da caverna, famintos de sol.
O tempo traz muitas luas.
Na dianteira do grupo,
nos deparamos com
gigantes ameaçadores.
Revisamos rapidamente
o armamento.
Temos lanças, pedras,
um resto de pão duro.
Os gigantes parecem brabos,
gesticulam, talvez esbravejem.
Assombrados, vemos
nossos filhos avançarem
pela lateral do grupo,
portando bolinhas
de cinamomos,
risonhamente belicosos.
Os gigantes eram simplesmente
moinhos de vento,
refrescando-se com as suas pás.
Livres da distração,
notamos que os nossos filhos
estão na vanguarda
de proteção ao grupo.
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