Um reescrito para Zilka Dornelles

Até há pouco tempo eu escrevia 

Zilca Dornelles, talvez por conta 

de uma doce trapaça 

do meu inconsciente, 

que associava tal grafia 

a palavra carinhosa, 

atributo da minha alfabetizadora.

Meu irmão Davi, também tributário 

da sopa de letras da inigualável 

primeira professora, 

foi quem me advertiu: Zilka!

É de conhecimento de qualquer 

Químico infanto-juvenil que o 

símbolo do potássio é K

e que o potássio é necessário 

para os batimentos do nosso coração.

Iguala-se assim portanto: 

Zilka = ex corde.

Eu quero tutear Zilka apesar de tu 

ter sido a senhora dos meus 

primeiros escritos 

e das minhas primeiras leituras, 

pois quem nos alfabetiza 

se aproxima e vira uma 

segunda pessoa, singular.

Tu foste a porteira que me abriu 

a porta do universo do que está escrito, 

antes de ti eu lia apenas de ouvido, 

depois de ti pude ler com os olhos, 

escolhendo por mim mesmo a hora 

diária de fazer o big bang 

do meu universo.

Pensei em te agradecer 

com alguma guloseima, 

pois tu me ajudaste 

a permanecer criança, 

encantando-me em escrever 

bilhetinhos pra sempre, 

num misto de coragem e receio, 

mas resolvi te agradecer 

juntando sílabas, 

costurando fonemas, 

pontuando a cada pequeno final.

Não preciso fechar os olhos 

e nem treinar o meu tato 

para ver e sentir novamente 

a mão maternal que me ensinou 

a empunhadura do lápis, 

instrumentando-me 

para escrever mãe, pai, irmãos, 

Robson, esposa, filhos, 

amigos, amor, lembranças, 

futuro, agora, pretérito do presente 

mais que perfeito.

Eu já escrevi pra  ti e reescreverei 

sempre que me apetecer, 

pois tu me ensinaste 

mais do que escrever,

me ensinaste a usar 

a borracha sem medo, 

quantas vezes eu quisesse 

ou quantas vezes fossem necessárias.


 (alfabetizado por ti em 1974)

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