A menina que furtava


A coisa vinha de muito tempo,
desde as lembranças mais antigas.
Lembrava do dia em que o seu
irmão  teve um tombo,
machucando o joelho
e chorando de dor.
Por nada o sangue e o choro 
do irmão estancaram,
enquanto o joelho dela doía.
Os ocorridos foram se sucedendo.
Bastava alguém das suas relações
se machucar que era ela quem sentia a dor.
Não fazia por querer, acontecia apenas.
Magia, bruxaria, mediunidade,
não sabia o que era.
Desconfiava de contar para quem quer fosse.
Era segredo bem secreto e pouco doía.
Notou que "puxava" também a dor 
dos cachorros, dos grilos e pardecos.
Era um sumidouro de dores.
Numa manhã acordou 
com algumas pontadas
de dor nas costelas, 
nos braços, nas pernas.
Soube que o abacateiro, 
gávea mais alta da rua,
havia sido cortado a machadadas.



Comentários

  1. Que dores ela sentiria vendo a linda paineira que deixava cor-de-rosa nosso horizonte secar integralmente? Dói em mim presenciar a morte da enorme árvore...

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