Chegadas



A boa senhora olhou-se no espelho 

e viu a história antiga.

Vivia de adivinhar a chegada 

de algum filho ou filha.

E se Deus permitisse,

por intercessão de Santa Ana, 

chegaria também algum neto ou neta.

Lamentava cada partida,

esquartejada em pedaços familiares.

Escovou os dentes e os colocou na boca, 

pareciam dentes de leite,

branquinhos de tão pouco uso.

Despediu-se do espelho,

procurando-se em outro século.

Cumprimentou o dia, 

desembrulhando saudades.

Seus dedos ainda estavam adormecidos.

Eram sempre os últimos a acordarem,

cansados das longas jornadas laborais:

eram os operários do perdão,

contando Ave-Marias

no rosário de cabeceira. 

Foi até a cozinha e engoliu

um pedacinho de pão,

hóstia imaginada 

com coração puro,

acreditando-se perdoada.

Não roubava nem matava,

só adivinhava chegadas.



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