Economias maternas



Era minha mãe quem arrumava minha cama,

de um jeito cujo perfume ainda lembro hoje.

Era um perfume de coisas protetoras,

firmes, inabaláveis, de feições leoninas.

Tendo este ato materno como porta de entrada,

a noite não me causava medo, pelo contrário,

era um lugar de silêncio e de apalpar o escuro.

O ato de deitar-me era sucedido

pelos beijos dela em mim, esbanjadora,

despreocupada em poupar carinhos.

Eu guardava os beijos sob o travesseiro,

cuidadoso com as minhas economias.

Gostava de contar com os meus dedos

os dedos dela, enquanto ela dizia o nome deles.

A mão era grandiosamente pequena, 

de veludo e sabia fazer tudo:

tricô, segurar livro, costurar botão, 

escrever como se desenhasse,

vestir de quentura a friagem do meu rosto 

nos invernos que eu chegava da rua,

abrir o dicionário, benzer-se.

Boa noite, meu filho!

ela dizia de coração inteiro e eu sentia 

toda a felicidade do mundo em ser filho dela.


Comentários

  1. Amor de mãe é sublime, mas a poucos cabe a sutileza de descrição tão afetuosa como esta!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Plauto Júnior

Horizonte iluminado

Namorada