Pequena biografia


                   (fotografia: Ruben Prass)


Ainda existe a casa em que nasci.
Apequena-se grandiosamente 
em mim, lugar de imaginações.
Está coberta pelas mesmas telhas
que me protegeram do sol e da chuva,
casamento de viúva,
objetos de dizer não ao calor, 
à umidade, à curiosidade dos astronautas.
As venezianas também são as mesmas 
que me camuflaram o olhar 
das coisas da rua e dos amores 
que não me sabiam.
As esquadrias das janelas
continuam escorando seus cotovelos
de mirante do cotidiano. 
Ainda sinto a respiração das paredes,
nem robustas, nem frágeis,
apenas possíveis, corpo da fortaleza
de sermos uns dos outros.
As portas não cansaram
de serem as mesmas,
entreabertas, sem nunca fraquejar
ou se tornarem indiferentes.
Ainda existe a casa que 
me alimentou de horizontes,
matou a minha sede 
num copo de cachoeira,
me vestiu de grandeza ínfima
e, de tão pequena, só poderia 
ser casa de brinquedo,
onde a sisudez gargalhava.
Ainda me habita a casa em que nasci.



Comentários

  1. Está aqui ao meu lado, parceira da minha morada desde que ambas existem. Observo seu telhado por vezes; tenho consciência das tantas e fraternas histórias que resguarda.

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    1. Que lindo isso, Mirian! Muito obrigado pela tua gentileza!!

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