Pequena biografia
Ainda existe a casa em que nasci.
Apequena-se grandiosamente
em mim, lugar de imaginações.
Está coberta pelas mesmas telhas
que me protegeram do sol e da chuva,
casamento de viúva,
objetos de dizer não ao calor,
à umidade, à curiosidade dos astronautas.
As venezianas também são as mesmas
que me camuflaram o olhar
das coisas da rua e dos amores
que não me sabiam.
As esquadrias das janelas
continuam escorando seus cotovelos
de mirante do cotidiano.
Ainda sinto a respiração das paredes,
nem robustas, nem frágeis,
apenas possíveis, corpo da fortaleza
de sermos uns dos outros.
As portas não cansaram
de serem as mesmas,
entreabertas, sem nunca fraquejar
ou se tornarem indiferentes.
Ainda existe a casa que
me alimentou de horizontes,
matou a minha sede
num copo de cachoeira,
me vestiu de grandeza ínfima
e, de tão pequena, só poderia
ser casa de brinquedo,
onde a sisudez gargalhava.
Ainda me habita a casa em que nasci.

Está aqui ao meu lado, parceira da minha morada desde que ambas existem. Observo seu telhado por vezes; tenho consciência das tantas e fraternas histórias que resguarda.
ResponderExcluirQue lindo isso, Mirian! Muito obrigado pela tua gentileza!!
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