Na cozinha



Comecei a escrever-me
na cozinha da infância.
Meu horário era fora 
do expediente culinário.
O que me interessava
era a modéstia da 
chaleira-espelho 
encimando o fogão,
a torneira sem soluços,
a abundância 
guardada nas tulhas,
o açúcar que se oferecia
a umas formiguinhas,
operárias noturnas 
que tinham muito cuidado 
com o vidro da quietude.
A memória das algazarras 
das horas de almoço
permanecia naquele espaço, 
o que não atrapalhava,
mas o que eu buscava 
era o contraponto, 
o silêncio noturno,
que chegava bem tarde,
alimentando os fornos 
da fábrica de mim mesmo.



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