Pergaminhos
Minha mãe e meu pai
fizeram-se de pergaminhos,
onde estão grafados os inícios
dos meus caminhos e buscas.
Percorro a vida geografando
a bifurcação que resultou em mim.
Comecei a existir no momento exato
em que os dois disseram sim com os olhos.
Já haviam dito sim outras vezes,
me assusta pensar que poderiam ter dito não. Inscreveram-se em mim, nariz, pernas,
o jeito de olhar, a perenidade sem prazo,
a verticalidade que não alcança
a parte superior dos armários.
A timidez em frequentar palácios,
a pouca propensão para o luxo,
o chavear-se de vez em quando.
Um atropelo discursivo, a palavra
como instrumento do tentar fazer.
Toda essa mistura de dna tem
me acompanhado em um pouco mais
meio século de acertos, desacertos,
tendo na cabeceira do pensamento
uma penca de bidês para escorar
objetos e atitudes sem valor venal.
Tenho olhos de ouvir e valorar,
errando valores, etiquetando por engano,
recomeçando sem nunca desistir,
sabedor da impureza do meu próprio agir.
Tendo a mãe e o pai pergaminhados em mim,
pele escrita docemente com as rugas do tempo.

Que lindeza, Robinho! E que montagem linda de fotos! Amados teus pais, belos pergaminhos…
ResponderExcluirMuito obrigado, Luciana!!
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