Meu avô e Olavo Bilac


 Cachoeira, 14 de outubro de 1916. 


Olavo Bilac acachoeirou-se

na Estação Ferroviária  

febril de gente e festa.

Instalado no Hotel do Comércio,

estava dormindo quando

ouviu uma voz que vinha da rua:

"Olavo, ô Bilac, quero falar contigo."

Lá fora estava meu futuro avô Pedro,

que ao ouvir falar da presença 

de tal estrela, quase perdeu o senso. 

Pálido de espanto, Bilac abriu a janela 

e disse: "Tresloucado amigo, 

que queres a essa hora em que

a Via Láctea inteira repousa?"

Bêbado de emoção, meu avô,

que tinha algumas 

luzes de lampião, respondeu: 

"Tua nobre presença 

à lembrança a grandeza 

da Pátria nos traz."

Comovido diante de 

tão inesperada aparição, 

o poeta agradeceu:

"Quanta alegria em ter ouvidos 

para ouvir brotar da tua voz, 

até então minha desconhecida,

esta pétala da última flor do Lácio, 

que porventura coube a mim

trazer o aroma à publicidade."

Sem atinar para o dito, cansado

por conta do horário adiantado,

sabedor de que logo seu dia 

iria amanhecer, vô Pedro, 

que era homem 

que trabalhava e teimava,

e limava, e sofria, e suava,

despediu-se patriótico e feliz:

"Recebe o afeto que se encerra 

em nosso peito juvenil."

E foi-se embora, trôpego,

frágil pendão de esperança.

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Plauto Júnior

Horizonte iluminado

Namorada